Toda a questão de patrimônio cultural é problemática no sentido do que define o que é ou não patrimônio cultural, sob que ótica,etc, isso é problematizado na academia e eu concordo imensamente com a problematização, inclusive porque o critério-base em geral é o que considera cultura apenas uma determinada faixa que tem o viés elitista que protege a cultura da burguesia.
 Rolou, por exemplo, mudanças quando incluíram a questão do imaterial,que permitiu acrescentar a produção cultural da base na brincadeira, mas ainda assim sob o viés elitista que inclusive engessa ritmos, modos de fazer sob o ponto de vista de uma faceta daquele ritmo e modo de fazer por exemplo. A diversidade de samba a folia de reis é imensa e apenas alguns elementos dessa diversidade são considerados, inclusive dentro de um espectro político de “vitória” de um desses elementos sob o sentido político interno a cada “grupo”. A folia do seu Joaquim ou o Samba do seu Torquato, virando referencia de patrimônio cultural pro registro do imaterial, acabam se tornando politicamente “líderes” e acabam levando os “derrotados” pro esquecimento.
Esse é um aspecto da questão toda, a questão do patrimônio material é outra. o Prédio tombado no centro-zona sul tem uma relevância e ressonância mil vezes maior que o forte de Cascadura, por exemplo, quase ignorado, jogado às traças. 
Então o critério de patrimônio cultural não é objetivo, não é “técnico” ele é referendado por uma série de vieses que recebem a “autenticidade” e a autoridade de definir o que é cultura e o que é relevante para esta cultura e precisa ser preservado.
A patrimonialização obedece a este tipo de identificação. Primeiro o que é relevante dentro de uma ótica de observação da cultura ou de opção por um determinado viés da cultura, segundo porque opta por uma opção geográfica de valorização cultural, o que se percebe no Rio de Janeiro de forma clara ao notar a preservação maior em certas regiões do que em outras de prédios considerados relevantes para a memória coletiva da cidade e/ou país. O Centro-Zona sul sofre alterações , porém em escala menor e reduzida de acordo com o controle destas do que o subúrbio. Desta forma o que se entende da cidade é uma ideia de permanência do Centro-Zona sul diante de uma mudança do subúrbio, uma mudança com ar de decadência, tanto devido  tanto ao aspecto arquitetônico das casas e prédios do subúrbio (que em geral contam menos com a sorte de manutenção constante levada a cabo com recursos econômicos nem sempre disponíveis) quanto à diminuta presença de qualquer resquício arquitetônico da história deste subúrbio. Nada permanece fora do circuito de preservação histórica reconhecido como relevante, nada é pertinente à memória da cidade e por isso é de se esperar que a mudança, a alteração da paisagem ocorra sem maiores critérios, escrúpulos ou cuidados. Prédios do século XIX no centro-zona sul são representativos do cuidado do estado e da sociedade com seu passado onde o passado é relevante e importante, nos outros espaços geográficos isso não é importante e é representativo a diminuta existência de qualquer exemplar de arquitetura que permita à manutenção da memória e quando existem é quase regra estarem em péssimas condições de manutenção. Não ocorre só no subúrbio, claro, em regiões periféricas do centro-zona sul, como a  Gamboa o tombamento não é acompanhado de qualquer medida de preservação prática, talvez pelo caráter de concentração de pobreza na região. A ausência de projetos de memória nas regiões externas ao eixo de poder e cuidado também são sintomáticos da ideia de patrimônio e de relevância cultural em voga nos órgãos do estado voltados para o cuidado com patrimônio.
Outro contexto a ser observado é o contexto da “modernização”. A modernização de determinados espaços obedece uma série de critérios “técnicos” definidos ainda sob o viés de “qualificação” de espaços que se assemelha aos critérios de  autenticidade e relevância por observarem um corte cultural presente em nos grupos sociais identificados com a ideia de “elite”. Esta modernização por vezes assume o caráter de “salvamento” de espaços geográficos ou palcos considerados patrimônio cultural  que pro vezes não estão à altura de receberem esta elite, que o considera fora dos padrões necessários de conforto e beleza. É claro que isso é uma referencia direta aos estádios de futebol em especial, mas também à praças, ruas e outras regiões “revitalizadas” como o porto do Rio de Janeiro que sofrerá agora com a sua “revitalização” nomeada como Porto Maravilha, cuja maravilha parece destinada a classes que hoje não habitam a região, dado que seus habitantes estão sendo removidos. Neste contexto de “modernização” o patrimônio cultural  material é alterado sob uma alegação de melhorias e benfeitorias  como álibi para depredação do mesmo e  profunda alteração de suas características arquitetônicas, sem muito cuidado para a preservação de qualquer forma de “memória”arquitetônica. O caso do Maracanã é exemplar e este artigo de Claudia Girão dá uma ideia do absurdo.
Se combinarmos a modernização com a relevância geográfica classista do que é patrimônio cultural chegamos ao subúrbio e ao projeto Transcarioca de construção do corredor de ônibus conhecido como BRT que levou ao chão prédios considerados patrimônio cultural pelo município e que foram despatrimonializados, como o Maracanã e a Fábrica da Brahma ao lado do Sambódromo, para abrirem espaço para a “modernidade” da copa.  Essa combinação de modernização com desprezo à memória do que não é espaço de circulação da elite leva ao chão parte da memória do subúrbio sem maiores dores de consciência e com pouca ressonância nos culturais meios de vivência da própria elite “consciente”. A ressonância do caso da implosão da Fábrica da Brahma e a depredação do Maracanã não se repete no caso do subúrbio, relegado ao silencio de jornais e demais mídias. Em que se pese o peso cultural do Maracanã e sua importância pro imaginário da cidade, a Fábrica da Brahma, com imensa importância história, não é a única que sofre com depredações, derrubadas, alterações,descaso e somem do mapa, há uma miríade de casos semelhantes em bairros suburbanos como São Cristóvão e Bangu, que não recebem a mesma atenção.
O patrimônio cultural então, cuja própria definição é gelatinosa e refém de critérios que poucas vezes não são determinados pro um viés de classe, tem na patrimonialização uma definição problemática diante da utilização de critérios que por vezes não escondiam uma opção por considerar relevante apenas amostras da cultura e arquitetura e em especial que se concentram em determinadas regiões, também estas consideradas indiretamente mais relevantes. Além do problemático assunto do que pode ser considerado ou não patrimônio, do viés de classe e de definição cultural de classe para esta definição, ganha-se o problema de como algo pode deixar de ser culturalmente relevante a ponto de ser “despatrimonializado”? Como algo considerado relevante culturalmente sob critérios “técnicos” a ponto de ser “Preservado” hoje perde essa significação a ponto de ser derrubado, no caso dos imóveis de campinho e da Fábrica da Brahma, ou completamente descaracterizados, no caso do Maracanã? 
É claro que a cultura se altera e critérios de relevância são continuamente alterados, porém é significativo que critérios de relevância tenham, para fins estritamente “técnicos”, tantas contradições visíveis e “Pesos” diferentes em relação à imóveis, pro exemplo, com características semelhantes no que tange à arquitetura, mas disparidade de localização geográfica. O peso histórico de um forte em cascadura não se iguala a prédios que hoje são parte de um chamado corredor cultural cuja extensão não atinge um percentual relevante da cidade.E bem contamos para efeito de discussão do aspecto direto de como toda esta alteração de critérios de relevância atinge algo que por vezes é ignorado em discussões sobre patrimônio cultural e mudanças na cidade: Os moradores, removidos para sei lá onde e suprimidos de sua propriedade ou posse.
A cultura e a cidade por vezes aparecem no discurso, assim como a  História, como se fossem uma definição exata e determinada, límpida, e de comum acordo para todos os membros da cidade, porém o que se vê é que a limpidez de definições de cidade, cultura e História é algo tão mítico quanto o da isenção da mídia, da academia ou da ciência.A cultura, a cidade e a História são elementos em disputa tão viva  na sociedade quanto a propriedade e o poder e, porque não, parte fundamental da disputa pelo poder e da hegemonia cultural, e esta luta não se limita á manter prédios ou sambas, mas em como, onde e porque eles são mantidos e até quando. 
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