Sempre tive bronca do termo “Civilizatório” e da palavra “Progresso”. Do primeiro porque fatalmente representava uma idéia de civilização que era a simples imposição de um modelo externo, ora europeu ora estadunidense, e que ignorava qualquer tipo de cultura que não fosse branca, chamando o resto de incivilizada.   Da segunda porque o tal “progresso” sempre era uma forma de explicar retirada de pessoas do lugar onde moravam, de locomotivas sem freio atropelando gente, de fábricas fumacentas entupindo nossos narizes, e isso era claro pra quem não vivia, como não vive, no mundo dourado da “civilização” Bossa Nova.

 Mais crescidinho vi a bronca crescer absurdamente, até porque comecei a entender com mais precisão o significado de ambos não como equívocos, mas como deliberada percepção de mundo e método de ação que simplesmente definia arquétipos culturais, e até físicos, A, B ou C como válidos para uma tal sociedade que estranhamente coincidia com modelos que causavam estranheza caso não fosse comparados com a população Beira-Mar das Princesinhas e Garotas de Bairros Chiques.

Pra quem cresceu vendo elogios a Guimarães Rosa e um “Grande Sertão: Veredas”, a um “Tempo e o Vento” Veríssimamente gaúcho e a uma “Tenda dos Milagres” de um homem que só podia ser chamado de Amado, os leu (E viu numa Tv Globo estranhamente ainda querendo mais que repetir fórmulas), e depois foi pelo caminho que desaguou em parcas leituras de Antropologia, ver “Civilização” e “Civilizatório” como  a imposição de modelos de uma única contribuição cultural causava náuseas.  Filho de um Pai carioca, e a contragosto fortemente lusitano do Porto, por métodos e tempera, ver que a civilização que ia além da por ele respeitada Bossa Nova e bebia em Rolandos Boldrins, Alvarengas e Ranchinhos, Paco de Lucia, Elomar, Vital Farias, arabescos nordestinos que ecoavam o lido em Malba Tahan, foi o bálsamo da percepção do tanto que poderia ser aprendido se deixássemos de lado um único lado do disco pra ouvir a obra inteira.

Nos olhos suburbanos ainda inocentes, era claro que todo mundo perceberia que a contribuição de todos era o máximo do “civilizatório”, porque “civilização” era o gênero humano e sua criação, sua história , suas línguas, cores e cantos. Qual o que? A percepção do “civilizatório” para além do umbigo imediato e das lentes da rua tornou-se, cada vez mais, um ofensa moral  e não a libertação do homem diante da obviedade e maravilha de sua diversidade.

A “Civilização”  como modelo branco, de terno, cabelo curto, machista, homofóbico e que “trabalha todo dia pra sustentar este país” não só ganhou como parece ter ganho de braçada. O que era visto como “caído” (que era ver pobre, índio, negro, mulher e gays como escória) virou hype. E é repetido todo dia, não por um ou dois, mas por milhões de pessoas que comemoram o dia do Índio com seus pimpolhos fantasiados (Valeu Sakamoto!)e  dizem sem vergonha nenhuma que “preto é foda!”, “Quem gosta de homem é viado, mulher gosta é de dinheiro!”, “Viado é safadeza e frescura!”, “Índio fica lá coçando o saco e eu pagando bolsa-família pra ele” e pra coroar: ” Pra que estudar e ser médico? vou ser Flanelinha, que não trabalha e ganha R$140,00 por noite”.

É a “civilização” sem civilidade, termo recorrente nas telas dos jornais preferidos dos “civilizados”, mas nunca aplicado. É a representação enfática da civlização européia, não com o glamour parisiense ou londrino, mas com a espada ibérica no pescoço indígena quando da chegada “civilizatória” no Novo Mundo no século XVI.

Por isso a bronca com o termo “civilizatório”, porque ele sempre representou o contrário do que gostaria de significar, era a representação da barbárie ignorante que ignorava Árabes como guardiões de Aristóteles, junto com Bizâncio, diante da queda de Roma e avanço dos ditos “Bárbaros”, quase sempre ignorantes a respeito do legado grego, embora importantes com seu legado cultural. Ignoram o legado da cultura Árabe para a tal “civilização”Européia, que os teve como vizinhos na península ibérica por muito tempo. Essa “civilização” também é aquela que acha que Africano ainda é ignorante e amaldiçoado, ignorando a história da África, o todo da África, a riqueza cultural, o legado filosófico de suas religiões, sem contar as figuras fáceis dança e música. Essa rapaziada também, obviamente ignora a cultura de sua língua, que foi parte tupi em grande parte da história, quando o nhengatu era a língua mais falada em Pindorama até Pombal por seu real pau na mesa e parar com a festa. Claro que tem mais angu e mais riqueza nessa história e em cada cultura citada e em outras ignoradas pela anta que vos escreve, mas este texto não se pretende tese, mas um questionamento básico de que civilização é essa que broxa e isolada em uma arrogância mofada ainda se entende como única em  um mundo mais rico do que a conta bancária chiquê que a mantém.

Essa civilização sem civilidade, esse substrato de etnocentrismo pseudo Europeu,rebola ao som de preto e favelado, que quando toca ninguém fica parado, mas mija no autor do som ao referir-se a ele como nitrato de pó de merda.

Essa é a galera da “civilização” broxa e apodrecida que comemora um dia de índio que deveria ser de luto, que acha que gay tem de entrar na porrada e que lugar de mulher é na cozinha e de negro é no piscinão de Ramos ou no pelourinho.
Diante dessa “civilização” caída, mesmo entendendo a limitação de bandeiras anti-homofobia, anti-machismo, feministas, anti-racistas, diante de mudanças mais drásticas, necessárias e fundamentais para a libertação da humanidade diante da prisão Capitalista Branca e engomada, é preciso pegarmos nas armas e bandeiras que diversifiquem em “civilizações” um país e um mundo que parecem passo a passo virar um pântano de intolerância ignorante que ainda acha Pizarro ídolo e Hitler um mau executor.
É preciso que entendamos que a revolção precisa existir como meta, mas que dia a dia precisamos vencer uma “civilização” com a civilidade democrática que que exige seus direitos e sua diversidade como cláusula pétrea de uma sociedade, ou sociedades, que já não pode ser calada com a opressão desqualificante de um pedaço dela que em seu apartamento ainda acha que direitos são privilégios.E nesse dia do Índio com Belos Montes é triste que essa civilização só os tenha deixado com o 19 de Abril e é nosso dever fazer com que de novo todo dia seja dia do Índio, do Negro, da mulher, dos gays, do Homem.

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