Após o espetáculo de midia e público da ocupação do Alemão, com apoio quase incondicional de várias faixas da população, as UPPs ganharam mais que apoio, alcançaram o lugar da modernização do mito de Eldorado.
Sem querer ser chato e já sendo, a lógica da politica de segurança que culminou na mega operação do Alemão tem tantas pontas soltas que fica complicado bater bumbo e ficar feliz com o ocorrido. E não estou falando de “desvios” da corporação que se repetem há vários anos, basta lembrar de 2007, estou falando do todo da política de combate, de “guerra”, apoiada numa visão da mídia que se apoia na exclusão e na criminalização como meio de angariar apoio baseado no medo.
 Não se pode reduzir o apoio populacional à ação da mídia, inclusive porque parte do apoio vem exatamente dos diretamente atingidos, os moradores das favelas, mas não se pode ignorar que o apio da classe média, que inclui os admiradores do Capitão nascimento e do body count do alheio, é fortemente ligado à visão de guerra ecoada por jornais e Tvs.
A cobertura da mídia inclusive continha “sustos” com traficantes com dinheiro construírem casas assemelhadas ao sonho de consumo da classe média, como se esse sonho, hegemonicamente estabelecido pela ideologia dominante na sociedade, onde o consumo e a posse de bens causam distinção das pessoas na sociedade, fosse restrito aos membros “legais” da sociedade capitalista e como se dinheiro e sonho só fossem permitido a quem “anda na linha” ou se grana tivesse pedigree.
Do outro lado, o lado onde a bala nem sempre é perdida, a população pobre dá um basta na manutenção de sua situação como vitima do ilegal, mesmo se ele for parceiro, e  se apoia na presença do estado, mesmo só de farda, exigindo com razão a permanência das forças de ocupação.
Este novo aspecto da coisa é que deve ser anotado e pensado, porque a população preferiu apoiar o estado que sempre lhe abandonou no medo e na carência de polícias sociais, entregue ás baratas e ao domínio dos traficantes. 
Nessa chuva de informações arrisco a dizer que o que garantiu o apoio da população da favela foi a possibilidade de um estado que chega sem ser só policial, e isso vem da política das UPPs. A possibilidade de uma polícia que respeita a população ganhou a idéia do medo duplo, do tráfico e do estado.
Esse avanço não pode ser ignorado, mas não pode ser tratado levianamente como um Xanadu moderno que a tudo resolve, porque não resolve. 
As UPPs até o momento são um brilhante caminho para a redução da criminalidade, mas por si só não garantem o estado na favela, como um todo, pela saúde, esporte, educação, cultura e respeito a cidadãos que não residem em apartamentos maneiros ou viviem uma atmosfera artificial de medo, mas o medo em si, medo da fome, da dor, do tráfico, da polícia, do desemprego e do futuro. Até hoje as UPPs instaladas tem problemas que vão desde a ausência do estado como um todo até o exagero do caráter de ocupação, quando os limites da invasão de privacidade, do direito de ir e vir e da repressão são ultrapassados por uma política de “sindico” das comunidades, politica essa oculta pela mídia, que só se interessa pelo aspecto “responsável’ das lições de arte marcial, bailes de Quinze anos,etc.
A polícia pacificadora  funciona à perfeição na pacificação das regiões limítrofes às favelas, reduz o risco ao cidadão que recebe o estado em sua casa, mas não garante pleno direito às áreas ocupadas. Ao levar o mínimo a quem precisa do máximo, causa temporariamente a sensação de perfeição nas regiões ocupadas e a seu redor, mas não solucionam nem a longo prazo a ausência do estado e a marginalização das populações faveladas. É uma variação da política do bode na sala pras favelas e de salvaguarda do direito das classes médias ao ir e vir e consumir sem medo do assalto e da violência que o “descontrole” lhe dava.
O paraíso perdido retorna, mas com riscos  de ser ilusão ao se defrontar com problemas mais sérios e que podem ocorrer a curto prazo a partir de causas não resolvidas do problema: A ausencia de uma política de segurança consistente e duradoura que permita a redução da criminalidade para além do enfrentamento do varejo nas áreas de favela; A ausência de uma política de inteligencia que reduza o avanço do tráfico de drogas e armas no estado, atingindo não só a ponta do varejo, mas todo o sistema, inclusive seu financiamento; A impossibilidade momentânea de ocupação de todas as favelas do rio por UPPs, dado o problema de escala; A ausência de combate real às Milícias, outras formas de ocupação das regiões pobres pela ilegalidade; A ausência de um plano de ocupação cidadã que mude a lógica da relação entre população pobre, polícia e estado, com real formação de núcleos de integração das favelas ao asfalto, mudando a lógica histórica desta relação na cidade do Rio de Janeiro.
As UPPs são uma ótima idéia conduzia por um estado ainda refém de uma lógica de cidade que a parte em duas, que a mantém refém de uma visão onde a “segurança” é só minimizar o medo do asfalto e controlar as áreas pobres dentro de uma lógica de participação mínima e democracia limitada.
Hoje as UPPs são uma excelente forma de propaganda para a classe média “apavorada”, muito mais com o que via na Tv do que com  que sofria na realidade e relaxada com novos “heróis” ocupando “aqueles lugares” que lhe davam pavor, e menos uma forma de participação ativa do Estado na vida de uma parte da população mantida sobre opressão multipla durante mais de um século.
Não é possível ignorar, é óbvio,que são um avanço, diante da lógica atávica de combate aos pobres, e redução de sua participação no dia a dia , mas não podem ser pensadas como panacéia sem que cumpram um papel de real demolição do muro que separa a cidade burguesa da cidade “quilombo”.
Não podemos esquecer que  política de segurança das UPPs é a mesma que levou á necessidade do combate que custou à sociedade 45 vidas, contabilizadas até agora, pela opção do enfrentamento à possibilidade de estrangulamento financeiro e de uso da inteligencia e pelo levar até o limite a possibilidade de ataques pelas facções do tráfico a partir da redução de sue poder pelas UPPs.
Não podemos ignorar também que os ataques são cogitados pela Secretaria de segurança há meses, e tudo o que foi feito foi uma suspeita postura de espera, como se aguardando fatores que permitissem uma ação espetacular à feição de uma cobertura midiática acrítica e propagandística.
Enfim, são vários elementos a serem observados para que não criemos uma atmosfera de apoio a rambos modernos, que ignora falhas, abusos, como o de assaltos à membros da comunidade feitos por policiais, à mitos como o de eldorado e paremos de cobrar uma política de segurança ampla, segura, cidadã. Não podemos ignorar os avanços, mas não é seguro crer que a mesma política que nos deu a invasão do Alemão em 2007 se tornou uma política de segurança cidadã, séria e completamente justificada.
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