Jean, as nega e o movimento negro

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Jean Willys em evento recente em Brasília falou como teórico da comunicação pra cagar regra sobre como o movimento negro se sente. Então eu vou cagar regra como historiador pra explicar pra ele que 300 anos de escravidão marcam um país inteiro com racismo, e que inclusive teóricos da comunicação reproduzem  este mesmo racismo em seus elogios, defesas e sua brodagem aos autores, diretores e mandantes de sua nova classe.

Talvez ao ler Althusser demais se tenha lido Thompsom, Gorender, José Murilo de Carvalho, Sidney Chalhoub, João José Reis e Marx de menos, por isso se esquece como funciona a luta de classes, a formação da classe operária, a relação entre classe e costumes, o racismo, a criminalização da pobreza e da cor preta e como se constrói a distância entre a república prometida e a república entregue ao povo, aos pobres, aos pretos,etc.

Talvez por ser um novo querido da emissora global, e tudo o que isso significa em termos de defesa corporativa dela e de seu novo status e locus de classe, fora o deslumbramento clássico com o novo posto na institucionalidade, com o novo lugar de fala teórico e com o novo status social que o permite transitar de forma superficial pelo terreno pantanoso da conciliação de classes, Jean tenha se esquecido da empatia que jamais se furtou a cobrar , e recebeu, sobre sua causa principal, a luta LGBT.

Pena que a empatia que recebeu, e receberá enquanto lutador, não veio de volta para com negros e negras, um movimento inteiro, que contestam a emissora cujo diretor de jornalismo escreveu o livro “Não somos racistas” para negar o racismo da sociedade , do estado, da mídia,etc.

Pena que a empatia que cobra, com razão, quando em luta contra a homofobia não funciona para com negros e negras estereotipados, submetidos à cruel e racista lógica da falta de espaço concreto, contra a hiper sexualização das mulheres negras, contra a colocação do lugar de fala de negros sempre como pedaços de carne favelados,etc.

Pena que em vez de citar Althusser para silenciar o movimento negro, Jean não teve, como jamais teve, a humildade de reconhecer um erro e tentar ser tão dócil com o movimento quanto é com a burguesia e foi com o mesmo PT que abriu mão da CDHM da câmara pro Feliciano ao apoiar Dilma com uma plataforma que sabe, como todos que tem mais de dois neurônios sabem, que ela jamais porá pressão para realizar, a da criminalização da homofobia.

Jean que foi prolífico na acusação de que anular o voto era ficar em cima do muro, quando optou por um lado do muro optou pelo lado que tem a voz do branco, louro e que despreza os negros.

Realmente estamos de lado diferente do muro e foi até bom ser visto por quem tá do outro lado como diferente.

PERDEMOS

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Tenho quarenta anos de sonho, de sangue e de América do Sul, por força deste destino um samba da Portela me vai bem melhor que um blue.

Nestes quarenta anos sempre me peguei estupefacto com a facilidade que o discurso amestrado permeia as análises de conjuntura e o medo pânico do confronto como elemento fundamental do embate político e da superação de impasses, de opressões, etc.

O medo pânico do confronto traveste democracia de mediação e insidiosamente inclui entre os artefatos da lógica “de esquerda” a defesa de governos que elegem Katia Abreu como forte candidata ao ministério da agricultura.

Enquanto a Espanha inventou-se e reinventou-se no PODEMOS, nós poderíamos iniciar a fundação do PERDEMOS, porque desde quando não somos competentes pra superar o aprisionamento que o PT levou a toda esquerda e pós-esquerda e seguimos a pauta de seus discursos como única barreira da direita, a defesa do medo do PSDB, todos dançamos uma polca.

Enquanto isso o mesmo governo do PT age como barreira das formas de superarmos as condições objetivas do avanço da gentrificação nas cidades, dos severos danos ambientais que levam à seca no sudeste brasileiro, a uma política ambiental predatória e aliada à ampliação dos efeitos do aquecimento global, a uma política de DH que rifa direitos LGBT, de mulheres, negros que promove garantia de lei e ordem (GLO) nas favelas com uma repressão inaudita a pretos e pobres.

E permanecemos perdidos enquanto tomamos Trabuco na Fazenda, Cid “Professor tem de ensinar por amor” Gomes na Educação e provavelmente Katia “motoserra” Abreu na agricultura.

E na perdição seguimos agindo nas ruas e nas redes sociais como mediadores, defensores mesmo do Partido dos Trabalhadores, contra a imprensa, a mesma imprensa bancada pelo governo com vultuosas verbas publicitárias a ela destinadas, governo este que poderia produzir a regulamentação das comunicações de forma ampla, geral e irrestrita enquanto produtor de uma lei de medios prontinha, feita por Franklin Martins e jamais posta em prática.

Pra quem pensar nisso tudo se podemos coletivamente agir de forma impressionista enquanto emprestamos credibilidade ao governo, ao PT, a quem o banca de dentro e fora do PT?

Pra que pensar nisso tudo, pensar numa ideia ampla, estratégica de combate à direita se podemos nos ocultar no guarda-chuva petista, nos dar bem com os coleguinhas da universidade, do chopp da Brahma?

A ideia da política como um pagamento de preços que nos levam à mobilização contra as opressões mudanças climáticas e secas vai de vala. Não vivemos na maré, não somos quilombolas, índios e pra nós a defesa de direitos LGBT tem o limite da nossa percepção de classe do que são LGBT.

Votamos conscientes e “taticamente” no segundo turno das eleições e seguimos a nave que vai.

Pois é, jamais PODEMOS, porque antecipadamente PERDEMOS.

E PERDEMOS todo dia, toda hora, com o recuo do principal eixo partidário do campo da esquerda, o PT endossado por ela inteira, dos partidos aos anarquistas, com o avanço conservador promovido pela própria lógica de cooptação deste mesmo partido, avanço este promovido pela nomeação a cargos eletivos pela conjuração de uma ampla conciliação de classes promovida com maestria por uma burocracia treinada pr se manter no poder com base em uma eficiente gerência do estado e do capital.

Seguiremos rumo ao Brasil Grande, ao Banco dos BRICS, dane-se que anarquistas são presos isso é problema conjuntural momentâneo, Rafael Braga, Amarildo, Claudia, DG idem, tudo isso é esquecido porque e preciso combater direita antes que ela vire governo, ou quando ela ainda não é governo.

Enfim PERDEMOS, se seguremos perdendo.

E eu to velho demais pra isso.

O eterno retorno da esquerda

Ouroboros

O saldo da empolgação da oposição de esquerda com Dilma, usando como álibi a campanha contra Aécio, ainda não foi feito, nem sequer cheirado.

Pra mim se perdeu uns bons dez anos de trabalho meia boca de base. Pra mim se gastou capital político bancando a campanha do medo, sem nenhum aceno, sem nenhum sinal de guinada, retomada sequer de pautas mínimas, de não haver mais recuos….

Os mais novos e inexperientes vá lá, mas figuras públicas, parlamentares, todos caindo no discurso do medo, no papo do “republicanismo”, do mal menor, do “Sou consciente”, mal mascarando uma empolgação adolescente com a campanha bem fornida do petismo e com o carisma lulista.

A ala lulista do petismo, dentro e fora do PT, já diz que essa campanha foi a mais de massa desde 1989 e tende a explorar isso contra quaisquer crescimentos da esquerda partidária no decorrer dos próximos anos, usando contra os neo aderentes sua própria adesão.

Tudo isso, somado às falhas graves de percepção do real por parte da oposição de esquerda, traduzida na péssima relação com a esquerda e pós-esquerda não partidária, não me cheira bem, não me faz ver um saldo organizativo positivo pra quem faz oposição ao PT.

A sensação é clara: se jogou fora um bom esforço, mesmo que com um programa meia boca, de constituir uma campanha radical de formação de terreno crítico ao PT em nome de um cálculo temerário de ganho da opinião pública sob o rótulo de “equilibrado”.

No fim e ao cabo ao irem além da declaração de voto, parte da esquerda deu sinais de cooptação pelo PT, deixou claro que não há capacidade de resistir à direita sem a capa do PT, sem sair do guarda-chuva do PT. Se jogou fora todo um discurso de feroz oposição aos abandonos de bandeiras históricas da esquerda em nome de um cálculo temerário de adestramento à lógica de esquerda equilibrada, possível e republicana.

Não adiantam duzentas notas desmentindo o que figuras públicas nitidamente ignoram ao participar de atos públicos, ao participar de programa eleitoral na televisão.

Enfim, quem se diz necessário se torna uma tendência externa à esquerda do PT.

Quem da esquerda partidária pregou voto nulo o fez sob uma perspectiva que desmente a si mesmo ao participar das eleições sem denunciá-las cotidianamente e mais, sem reorganizar seu próprio discurso e diálogo com movimentos, etc.

Enquanto isso o movimento anarquista, enquanto acerta no trabalho de base se perde pela própria imaturidade de boa parte de seus novos adeptos e toca uma campanha de questionamento do status quo correta as com linha pedante e arrogante em muitos sentidos ao abordar a negação das eleições atacando quem vota. Algo que é natural tendo em vista a diversidade e a pulverização da própria ideologia e sua lógica de organização.

Enfim, enquanto o espaço de crescimento à esquerda só aumenta, a esquerda partidária patina em um mar de equívocos que são nitidamente uma falha de percepção estratégica, de consenso sobre unidade de quem prega unidade ou de ação coordenada na diversidade de quem prega diversidade. E por isso a reação à conjuntura de percepção de ideário libertário parece avanço conservador, mas é apenas reação organizada a um crescimento difuso desperdiçado cotidianamente pelos grupamentos anticapitalistas.

Há espaço pra recuperar o tempo perdido de quem souber aproveitar o medo pânico de sair da esfera histórica do PT e da forma partido tradicional, mas esse tempo não é infinito e nem a direita vai ficar dormindo e apenas reagindo.

Da onda conservadora ao crescimento da esquerda

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A tal onda conservadora é um processo mais longo, cujo avanço recente é superestimado e cuja análise impressionista tende a superestimar mais ainda.

Primeiro que esse processo não é uma onda, é um avanço paulatino que vem num crescendo eleição à eleição, a partir das guinadas à direita que o PT foi dando, além do crescimento de alianças do PT e do PSOL com partidos conservadores.

Não entendo que esse processo tem a ver com Junho, Junho é, na verdade, uma reação a isso. Esse processo de avanço conservador é a causa e não o efeito de Junho. E tem tudo a ver com as guinadas do PT à direita, aliança com o ruralismo, desenvolvimentismo removedor de pobres por causa de megaeventos, etc.

Junho não é responsável por essa eleição do congresso, Junho tem mais a ver com a abstenção e crescimento da esquerda, mesmo que pequeno no âmbito numérico e eleitoral. A reação conservadora de quem tava mais quieto foi só um evento oportunista. E acho que se confunde um avanço do fascismo com uma saída do armário de nossa velha cultura de opressão senhorial.

Heinze recebeu votos de ruralistas, de gente com mais presença no campo, com gente que tem um tipo de ódio a quilombolas e índios; Bolsonaro o voto do milico repressor homofóbico, do “bandido bom é bandido morto”; Feliciano recebeu o voto conservador moral, são faixas diferentes do eleitorado que nem sempre se cruzam.

Quem mais sofreu com a repressão não votou neles, quem não compactua com a repressão não votou neles. E não, não foi a maioria do eleitorado que votou neles, o eleitorado conservador focou neles, aliás, concentrou votos mais do que ampliou sua base de votação. O voto nos piores quadros foi um voto concentrado, o que cresceu no varejo foram votos em políticos conservadores ligados ao ruralismo e ai o discurso de progresso econômico funciona mais do que a lógica de posicionamento político repressor e conservador.

Vale lembrar quem eu torno do ruralismo se erguem Oásis econômicos em cidades pequenas e médias, como Campo Verde no Mato Grosso, onde se ergue uma cidade dos proprietários rurais e cuja economia fomenta empregos dos mais pobres. Esses lugares têm o peso político do voto ruralista que engordou essa bancada à direita no congresso. E essas cidades pequenas e médias cresceram muito no país, especialmente no centro-oeste.

Esses grupos não precisam dar golpe para estarem no poder. Ruralistas mandam e desmandam desde FHC. A ala conservadora fundamentalista se sente feliz pelo apoio destes à agenda reacionária comportamental e não quer muito mais que isso. Bolsonaros, minoria dentro dos conservadores, não é ultraliberal, mas ultraestatista.

Ruralistas como Heinze não querem redução do estado, querem um estado forte que impeça o avanço de sem terras/índios/quilombolas sobre suas terras e que subsidie sua produção.

Não existe “golpe utraliberal” em andamento, isso é uma variação tão ficcional quanto a ideia que o governo do PT está sob golpe constante. Aliás, bancos, empreiteiras, agronegócio e petroquímicas controlam o estado faz tempo. Não precisam dar golpe, quanto mais golpe de “ultraliberais”.

A ameaça ao projeto da burguesia hoje é um povo cada vez menos afeito ao acordão de classes que governa o país há doze anos e a uma ala da burguesia financeira que discorda de não ter lucro máximo e articula uma repactuação com os outros setores pra ampliar políticas que beneficiem um reajuste de alianças n plano da política externa que facilite lucros dos mercados financeiros, que aumente juros, etc, e só e essa galera se articula em torno do Aécio com mais força.

Estamos diante de um crescimento do fascismo? Bem, primeiro temos de parar de achar que tudo é fascismo.

Quando todo mundo é fascista ninguém é.

E é de uma irresponsabilidade enorme esse papo de que tudo é fascista ou que há indícios de golpe em andamento. Não há golpe em andamento e nem estamos diante de uma realidade com crescimento orgânico do fascismo.

O mais visível é a repactuação da velha elite conservadora em torno da conquista de hegemonia política e econômica com o crescimento do papel econômico do agronegócio no país com um crescimento, especialmente nas ruas e organizações, da esquerda, cujo reflexo eleitoral é menor do que o reflexo nas mobilizações.

Quem entende que cresce mais o fascismo que a esquerda, olhando só pro congresso, ignora uma série de coisas, como o crescimento da esquerda no congresso, como o crescimento de organizações anarquistas, autonomistas, saldo organizativo nos partidos de esquerda, número de candidatos de fora do PT com chances eleitorais, aumento numérico de parlamentares da esquerda eleitos e ligados aos direitos humanos, etc.

No RJ a esquerda cresceu mais que a direita, percentualmente mais e com penetração em áreas de milícia. Bolsonaro se elegeu batendo no teto, com pulverização dos votos, com clara evidência que ali se houve transferência de votos entre a direita, que muitos que votavam em deputado x da direita passaram a votar em Bolsonaro.

Além disso, organizações de professores, de favela, atuam com mais ênfase do que antes e se tornam mais visíveis. Idem são mais visíveis as contestações ao processo eleitoral nas periferias.

Há ainda as mobilizações indígenas, dentro e fora do processo eleitoral, as frentes quilombolas, uma série de elementos que indicam um avanço enorme das lutas para muto além da institucionalidade e que até justificam a reação conservadora, que apontam o motivo pelos quais se construiu essa reação.

É interessante inclusive olhar o mapa dos votos nulos no RJ, em SP, no Nordeste e perceber que estes votos nulos se dão inclusive de forma presente onde os programas sociais do PT mais atingem, o que permite entender que estes programas tiveram efeitos além da retirada da população da miséria, com acréscimo de exigências para além da saída da miséria. Além disso, não se endossou o PT, tampouco a oposição, ou seja, periferias e regiões inteiras do país não se viram representadas no primeiro turno das eleições. E nem falamos dos votos brancos e abstenções.

Por isso tudo, analisar o crescimento da bancada no congresso de forma impressionista tornando isso um crescimento do conservadorismo no país junta muita gente no mesmo saco, analisa quadros complexos de forma simplista e esquece que ao mesmo tempo em que mais deputados conservadores se elegem, existem diferenças entre eles e mais, existem diferentes recados do eleitorado.

Cês sabem que Bolsonaro não quer o estado mínimo que Feliciano quer e que Heinze não gosta nem do estado máximo de Bolsonaro nem do Estado mínimo de Feliciano? Claro que não, é mais fácil escrever “A diferença só existe pra enganar vocês”.

Cês tem ideia da diferença de Heinze, que faz parte da direita que exerce concretamente o poder, e Feliciano, que sequer cogita ter realmente o poder, e Bolsonaro, que tem planos de poder que assusta até os liberais e a direita tradicional?

Pois é, por isso é simplório, simplista e taticamente tolo ignorar essas diferenças e juntar tudo no balaio do fascismo, o que acaba sendo um cair na lei de Goldwyn. Além disso, entrar na teoria da conspiração do “golpe ultraliberal” é misturar iogurte com purẽ de batata. Primeiro que tem de ser claro: ou é fascista ou é ultraliberal.

Até existe um fascismo de novo tipo no mundo, que mistura alas ultraestatistas com elementos liberais e que passeia por ai como o Tea party estadunidense, mas os ruralistas brasileiros, mesmo os por vezes caem nesse fascismo de novo tipo, não são similares aos do Tea Party. Primeiro porque governam, segundo porque precisam e sabem que precisam do estado como parceiro pro avanço mundo afora. Segundo porque entendem que o principal é a garantia da expansão da produção e a garantia da posse da terra, o resto é secundário, inclusive questões de DH, que são apenas meio de mediação entre eles e o eleitorado.

É erro mor chamar de onda fascista o que é a recomposição conservadora dos últimos dez anos, assim como a lógica de que há um golpe em curso. Isso é ignorar a composição do poder pela direita, ou seja, pra que dar golpe se ela já manda, especialmente no congresso?

Pior é tratar a direita tradicional coronelista de fascista, misturando o caráter bolsonarico do fascismo brasileiro com o caráter tradicional da direita coronelista sintetizada n Heinze, Caiado, Kátia Abreu, que é uma direita que já controla o congresso e manda e desmanda na presidência por ser o eixo econômico do capitalismo brasileiro.

Com o agronegócio, penetrando inclusive no mundo financeiro através dos SISCOOB e Sicredi da vida, ou seja, o agronegócio tem banco, empreiteira, o caralho e manda e desmanda no país, pra que dar Golpe? E como chamar isso de fascismo igual ao do Bolsonaro, que é a cara do fascismo brasileiro se ambos divergem sob o tamanho do estado e a ideia de focar em DH para além da retirada de direitos indígenas?

Esse tipo de análise é fundamental para que saibamos como nos organizar diante dos inimigos a serem enfrentados. É fundamental saber concretamente a diferença entre os inimigos para saber como combatê-los. O combate à direita homofóbica é por um flanco, o dos fascistas por outro, o dos ruralistas por outro. Misturá-los e chamar todos de fascistas envenena nossa análise.

Primeiro porque Bolsonaro é muito pior que Feliciano e Heinze juntos, é o Boss do vídeo game do combate à direita. Bolsonaro faz todos os cenários de análise de conjuntura pirarem e acionarem o alarme da corrida pras montanhas. Segundo que o combate a Bolsonaro tem de ter o tamanho concreto do seu crescimento para saber a quem combater. E até o momento o que se viu é a supervalorização deste inimigo que teve ele um crescimento que não constitui ameaça orgânica fora de seu papel de fascista histriônico. Terceiro que a direita ruralista encastelada como jóia da coroa da economia é o centro da ameaça da direita e tá dominando o poder faz tempo.

Ao fim e ao cabo é menos hora de chamar de onda conservadora o que é um ongo processo e mais hora de organizar a resistência ou amplificar a resistência surgida em 2013 que erroneamente vem sendo tratada como causa do processo de reação conservadora e não reação a ela, e como responsável pela eleição da direita e não como um caudal mal analisado pelos analistas políticos, mal trabalhado pelos atores políticos e que ainda está em curso de resistência e mais, ainda está em busca de organicidade nos diversos movimentos.

Uma dica? Há resistência a partidos.

O elogio da loucura – Um desabafo

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Pra quem quer ter um parâmetro da desolação de quem viu ontem o debate entre os presidenciáveis e viu o discurso da questão climática ser abordado de forma absolutamente irresponsável, recomendo ler essa entrevista com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Débora Danowsky. Ou se achar muito grande é só ler o blog do companheiro de lutas Alexandre Costa. Também funciona procurar sobre crise climática, crise hídrica e crise ecológica no Google.

Se mesmo assim permanecer a dúvida da gravidade da omissão dos candidatos a presidente em abordar o tema das mudanças climáticas e se insistir no discurso produtivista de que sem mexer na economia nada muda, isso pra justificar uma análise macroeconômica que exclui a ecologia como fazem a maior parte dos militantes da esquerda partidária, eu apenas lamento.

Lamento porque o que se viu no debate pode ser definido como um elogio da loucura. E se o discurso do proto fascista Levy Fidelix chocou pela pregação da violência homofóbica, com razão, a omissão coletiva sobre este tema e sobre a questão climática mais que chocou, ofendeu.

Lamento ver o ecossocialismo, corrente do socialismo marxista que respeito e me formou como ambientalista, ser secundarizado num discurso pálido, omisso, frouxo, irresponsável.

Lamento ver que o ecossocialismo no Brasil é tratado como chacota especialmente no único partido que o mantém como um discurso a princípio apenas parcial, propagandístico, e com todas as oportunidades de produção teórica e política de formarem quadros ecossocialistas, candidaturas ecossocialistas, não o fazem.

O ecossocialismo no Brasil fracassa porque salvo raríssimas exceções é tratado como assessório, como discurso slogan e como discurso espetáculo que jamais é tomado em seu inteiro teor diante da gravidade da crise ecológica e da crise climática, uma embutida na outra e que ocorre na nossa fuça.

Ao tornar o petróleo cláusula pétrea e ao se omitir no abordar o fim dos combustíveis fósseis, metas de redução de emissão de carbono, programa de transição energética e vincular isso à agroecologia, mudanças nos parâmetros de consumo, alimentação, distribuição de alimentos, o PSOL, único partido com um setorial ecossocialista de peso, se omite de ser um partido necessário.

Se a forma partido pra mim já era desnecessária por um em número de questões e se essa sensação já existia quando eu paulatinamente tomava contato com o anarquismo verde e anarco primitivismo e os lia e entendia formas diferentes de organização na luta ecológica, ontem essa forma partido perdeu inclusive a áurea de tensionamento de discurso. Perdeu essa possibilidade porque na prática tensiona muito pouco e perde todas as oportunidades de sair do discurso de combate aos bancos e ao discurso udenista moralista e partir pra porrada concreta com relação às opressões e à crise ecológica.

Não foi só Luciana que perdeu oportunidades ontem, foi o partido. Luciana perdeu oportunidades no debate e é tratada com condescendência por seus companheiros e militantes e nome do espírito de corpo, que na prática também corroboram com ela na completa ignorância da questão ambiental.

Ontem, além do asco que a empatia com todos os LGBT me leva a ter após o desastre da omissão coletiva diante do discurso fascista de Levy Fidelix, me senti como um lixo humano de ter construído por anos uma luta ambiental totalmente ignorada pelo partido e por hoje sua principal figura pública.

Se minha adesão ao PSOL havia falecido quando me voltei novamente para a militância anarquista, ontem vi qualquer resquício de respeito ao programa ecossocialista por parte da candidata ser jogado fora pela manutenção do desprezo pela ecologia em nome do discurso fácil da macroeconomia mais ortodoxa.

Ontem Luciana Genro sepultou o ecossocialismo no PSOL. Eleger deputados foi mais importante que isso. Eleger deputados foi mais importante que a manifestação de completo repúdio à homofobia. Eleger deputados e atacar o PV foi prioridade ao invés do discurso ambiental.

Ontem o PSOL definitivamente acompanhou o PT, o PSB, o PSDB no elogio da loucura.

O partido do SOL ignora o sol como fonte de energia, não se declara ao sol, não fala do sol, não toca no totem do petróleo sonhando um dia ser poder pra entrar na OPEP.

Ontem a democracia fracassou, o meio ambiente fracassou, os indígenas fracassaram. Toda a luta ribeirinha, indígena, quilombola foi secundarizada junto com a luta LGBT, outra luta que vira slogan bonito, mas que fora a defesa correta do casamento civil igualitário quando se fez necessário o enfrentamento direto à homofobia se preferiu seguir um script.

Esse marxismo é o marxismo que veste a farda da crítica anarquista ao marxismo. Esse marxismo leninismo de cartilha, pobre, parco teoricamente, omisso e covarde, não é o marxismo de Thompsom, de Lowy. Esse marxismo não é sequer o marxismo de Marx.

Esse Marxismo teológico e teleológico que acha que a revolução é um dado histórico, esse mecanicismo obreiro e disciplinado que ignora o atropelamento da ecologia no cotidiano, sendo cúmplice dela ao tratar a crise ecológica como palavra de ordem. Esse marxismo de galinheiro que opta por elogiar a Diva em vez de perceber a cagada que foi o conjunto da obra da opção entre a defesa de um programa que varreria Eduardo jorge para seu lugar de capacho verde da direita e o ataque às alianças do PV e do silêncio diante da homofobia explícita de Fidelix. Esse marxismo de galinheiro é primo dileto da burocratização e da cooptação do estado.

O PSOL ontem fez seu canto do cisne pra mim, definitivo e completo. O partido “necessário” se tornou desnecessário arremedo.

Quando a principal voz da esquerda guetificada pelo conjunto de sub-radicalismo com oportunismo eleitoreiro opta, em sua melhor chance, por seguir um script careta e um discurso de eleição de DCE em vez de assumir a responsabilidade sobre a crise ecológica e sobre o combate direto à homofobia ali presente, gritada, ai já deu, sua necessidade não existe mais.

Lamento profundamente ter visto a comédia de justificativas pobres, de ataques velados ou abertos aos críticos ao invés da análise crítica do tamanho da oportunidade perdida.

Pela primeira vez em muitas eleições a crise climática entrou na pauta, mas a atriz com o melhor papel para atuar sobre ela, preferiu o script errado.

Desde que batemos todos os recordes negativos do acúmulo de CO² na atmosfera, que batemos recordes de temperatura, desmatamento, desde que entramos em profunda crise hídrica em um dos países praticamente proibido de tê-la, se exige mais que discurso ecológico da boca pra fora, de discurso ecológico capitalista ou de discurso de privatização das florestas. Mas quem tem como fazer esse contraponto optou conscientemente por não fazê-lo e reduzir o debate a um combate ao desmatamento, sem citar desmatamento zero e pior, ainda gastou mais da metade do tempo pra bater nas alianças do PV em vez de discutir o programa.

Não é de hoje que o debate ecológico no PSOL é negligenciado. Enquanto há setorial não há nenhum respeito a ele, menos ainda absorção das políticas por ele defendida. Diante disso como ter fé em um partido que despreza seu próprio programa ecossocialista?

Diante disso como aturar críticas ao “Não vote, lute!” que diz que nenhum partido cumpre seus programas ou pode garantir este cumprimento se a própria candidata ao assumir a tarefa foi incapaz de seguir seu próprio programa?

É muito fácil questionar os críticos às eleições em nome de argumentos como “Não votar fortalece a direita”, enquanto se discursa um discurso que fortalece a direita, o produtivismo, o negacionismo climático, etc.

É muito fácil questionar a desilusão alheia contribuindo para ela.

Depois se reclama o baixo percentual e se culpabiliza quem abandona o barco, é sempre a saída mais fácil. É sempre mais fácil transformar tudo em mágoa.

Enquanto se constrói um partido que despreza a luta ecológica, se critica quem faz a saída das ocupações, das ecovilas, como lutadores pela saída individual ou pontual, mas estes ao menos estão concretamente reduzindo emissões e discutindo emissões de forma pública e apontando soluções.

E os partidos? O que fazem além de transformar debate político em sociedade do espetáculo, tratando o desenvolvimento como panaceia acrítica, ignorando a necessidade de decrescimento da economia, de redução da estrutura econômica predatória, da obsolência programada, d consumismo devastador, de combate imediato à crise ecológica? Nada.

A ideia do desenvolvimento das forças produtivas, dogma perpétuo dos nano marxistas de cartilha, impede os partidos de olharem pra fora e verem o desastre.

Talvez pensem que no longo prazo estaremos todos mortos. E talvez seja ai a única vez que acertam.

A naturalização do estado e da eleição como elemento estrutural

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A naturalização do estado é um processo arraigado e produzido pelo reforço na cultura e pela educação formal dele como elemento que sustenta a realidade social e que possui uma inevitabilidade, a inevitabilidade do estado e da nação.

Fruto da formação dos estados nacionais e do conceito de cidadania advindo das revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX, da invenção da tradição do estado como elemento inevitável à organização social, a naturalização das eleições, do voto e do estado é elemento que influi diretamente nos debates políticos, seja eles de cunho socialista, anarquista ou liberal.

A partir do momento em que o estado é algo dado, para além de sua existência factual, se elabora todo um processo estratégico de embate em torno das formas como que se lida com ele, seja pelo endosso para construção de ruptura, seja pelo endosso para reforma, seja pelo endosso pela manutenção, seja pela recusa do endosso pela negativa do voto e da participação nele.

O estado, visto como elemento natural da vida humana, é erigido como totem seja pela busca de seu uso para a transformação, seja por seu uso pela manutenção do status quo, seja pela criação dele como moinho de vento a ser removido.

E é nesta naturalização que repousa parte da redução do debate político em torno do estado e da aprovação ou negação do voto como ferramenta transformadora. O estado é discutido, combatido, é defendida sua reforma, mas ele jamais é abandonado ou se busca sua superação como paradigma.

O paradigma do estado naturalizado está intrínseco na percepção politica dos mais variados campos do embate político. Em qualquer cenário a importância do estado é endossada, inclusive por sua negação.

Especialmente nas eleições o estado domina mentes e corações ao tornar-se centro de todo e qualquer debate no âmbito político, de toda tarefa, secundarizando construções múltiplas de transformação social e humana, como a luta ambiental, por igualdade de gênero, por visibilidade trans*, por direitos civis LGBT, por igualdade racial. Tudo se torna secundário, a luta pelo ou contra o estado se torna central, jamais perpassando as ações transversais de sua superação ou transformação.

E especialmente entre anarquistas o estado se transforma em mais que um moinho de vento e espantalho perfeito, ele se torna presente na metodologia de debate e construção, que ao mesmo tempo que grita “Não vote, Lute!”, reforça as eleições como tarefa prioritária, criando uma centralidade das eleições com sinal invertido da dos partidos socialistas.

Tudo se torna uma ameaça paranoide à ideia de anarquia pelo simples fato de flexibilizar a centralidade das eleições e apontar a necessidade de desconstrução do voto como ferramenta a partir da desconstrução do paradigma da eficácia do estado e do papel central de seu endosso para a ótica política transformadora.

Ao centrar esforços na negação do voto pura e simples, sem construir um diálogo desconstrutor do papel estrutural do estado na cultura dos homens, os anarquistas acabam o endossando pela alteridade. Ao negarem-se a perceber o papel do estado como elemento naturalizado por séculos de construção ideológica pelas escolas, pelas igrejas, pelo trabalho, os anarquistas endossam o estado como figura central na vida humana. Não se avança na negação ao voto, mas não do eleitor, torna-se o eleitor como vaca braba tangida pelo estado e se assovia um mambo. Se age de forma autoritária excluindo qualquer reflexão que entenda a anarquia como um campo com enorme potencial de crescimento e que precisa prescindir do estado para sobreviver e se espalhar.

Quando negar o voto passa a ser central, o resto é secundário e o voto ganha um poder pela negação que não é enxergado, pois o estado, o voto, são naturalizados como parte integrante do cotidiano. Ao negar voto pura e simplesmente o anarquista torna-se endossador do voto, se dá a ele, às urnas, um poder que precisa ser eliminado pela negação.

Óbvio que não estou aqui dizendo que o voto não é importante, que não é importante a tarefa de negar o processo eleitoral como ferramenta, mas colocando que a negação do voto não pode prescindir da qualificação dessa negação como negação da servidão voluntária. E o não-voto não é central, ele é parte de um longo processo de lutas contra o estado e por auto-organização, que precisa ser centralizado como forma de propaganda político-ideológica.

Ou se nega o voto pura e simplesmente por que anarquista não vota? Se pergunta por que anarquista não vota? Ou se naturalizou o não voto como se naturalizou o estado?

O estado ai, na negação pura e simples do voto, permanece agindo, permanece agindo ao criar um anarquista de almanaque, imune às pressões cotidianas e avesso ao diálogo aberto sore sua negação do voto, do estado, do machismo, da homofobia e pautado pela construção da abolição da hierarquia. A negação do voto vira um fetiche ideológico, um totem tabu irremovível e inquestionável, em outras palavras, vira um nada libertário dogma.

Acaba-se negando-se o voto, mas trazendo-o como central pro espírito da anarquia e com ele trazendo o estado como central, o resto é secundário e acaba-se sendo o estado ao negar todo diálogo em torno do voto, mesmo que seja para negá-lo indo além dos facilitismos de chamar o eleitor de escravo, servo, etc. Opta-se, conscientemente, por uma metodologia de gueto, de manutenção ao redor do anarquista apenas dos puros.

Ai autores como Bookchin, ações como a dos anarquistas escoceses, canadenses e catalães que viam no plebiscito ou na participação pontual em eleições por anarquistas como ferramenta de intervenção, seja para a independência de um povo do jugo do imperialismo, seja pela participação em plebiscitos ou em conselhos como os de orçamento participativo, tudo isso vai pro lixo.

Nesse sectarismo o estado acaba sendo elemento predominante da prática política anarquista, não por negá-lo combatendo-o em saídas do estado, seja por ecovilas ou pelo anarco-sindicalismo ou okupas, mas por centrar-se na negação da institucionalidade pura e simplesmente.

A negação da institucionalidade acaba sendo ai uma opção pela luta institucional quase igual à opção dos partidos socialistas, só que com sinal contrário. Acaba-se fazendo da negação do voto opção estratégica e não tática, de forma idêntica ao que fazem partidos socialistas, só que pela negação do voto.

Ao fim e ao cabo não se combate o estado como se combate o machismo, a misoginia, a homofobia, o racismo, a transfobia, como estrutural, como um mal estrutural que deve ser desconstruído de dentro pra fora, indo além denegá-lo, mas deixando de reproduzi-lo.

Desta forma nega-se o estado pra fora, sem negá-lo pra dentro e assim o companheiro anarquista acaba sendo ele o estado. E ai ele é tão autoritário e hierárquico quando o que nega.

A busca pelo purismo ideológico, calando a diversidade e a polifonia, acaba sendo ai um elemento de hierarquização entre anarquistas que encontraram a iluminação libertária e anarquistas não plenamente convertidos. Não raro isso acaba sendo posto no plano do argumento de autoridade que incide sobre o outro com o argumento hierárquico do “Vai estudar!”.

Quando se comete essa hierarquização e política de gueto o anarquista nega mais do cerne da ideologia do que quem vota, pois atribui a si um guardião de uma pureza ideológica que nega a diversidade típica da ideologia anarquista e acaba sendo uma espécie de guardião de um conhecimento de sociedade secreta, um imitador de uma espécie de maçonaria ideológica.

E é sintomático que tendo o não-voto como cerne da política se ignore a misoginia, a homofobia, o machismo e o racismo praticado por companheiros anarquistas, que por seguirem a cartilha com correção recebem anuência por omissão de seus correligionários.

A eleição e o estado são naturalizados pela educação e pela cultura, para combatê-los é preciso mais que negar-lhes, é preciso sair do plano meramente utópico e partir para um diálogo prático da anarquia como fundamentalmente organizada a partir do hoje e onde o negar o estado é negar-lhe inclusive o domínio da ação política cotidiana, é negar-lhe a pauta política pela eleição.

Se anarquista não vota ele menos ainda se centra na campanha anti-voto, que é sim parte de um arcabouço de lutas que deve ser central na propaganda ideológica.

Quando o “Não vote, Lute!” não aponta as lutas a serem lutadas é uma palavra de ordem vazia.

Quando o anarquista aponta o eleitor como servo ele age como senhor iluminista catequizador e não como libertador.

Por isso não voto, luto contra combustíveis fósseis, contra a homofobia, contra a misoginia. Não voto e luto, sem negar o eleitor e o diálogo para que este vá além de votar, se organize na luta cotidiana.

A luta contra o estado e a eleição necessita de sua desconstrução inclusive em nós.

Eu tenho nojo de ser branco

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Nasci branco, cresci branco, minha identidade branca jamais foi questionada ou ofendida ou humilhada, jamais me pôs pra andar no elevador de serviço, tampouco me levou a ser oprimido pela polícia ou a perder emprego por ser branco.

Ser branco não foi uma escolha e não me causa orgulho. Ser branco é um destino, algo que me foi imposto pela biologia. Ter orgulho de ser branco é como ter orgulho de não ser cadeirante ou orgulho por não usar óculos. É como ter orgulho por não ter nenhum tipo de mancha na carteira de privilégios. Branco e homem então é o alto da cadeia alimentar, se for rico é quase o morador do topo do Himalaia.

Não é difícil entender isso e uma mísera pesquisa no google dá margem à compreensão disso, desde pesquisa sobre renda até sobre ocupação de cargos públicos.

Como este texto enveredará pelo futebol podemos usá-lo como exemplo: No futebol há quase zero de dirigentes negros, técnicos negros, os negros participam como jogadores, seguranças, roupeiros ou torcedores. Negros como dirigentes e técnicos, supervisores, médicos? Pouquíssimos, quase zero.

Por que escrevo tudo isso? Porque o racismo é a mais abjeta forma de opressão que conheço. Racismo me enoja e cumplicidade com ele idem.

Adoraria optar por deixar de ser branco e ter mais que empatia com quem sofre racismo, mas não posso, nem me entendendo negro na cultura, na música, na fé, nos heróis. Essa suposta negritude que busco pra mim numa fantasia delirante é uma escolha que não me dá o ônus de ser negro.

Nos recentes episódio sobre Aranha, Torcida do Grêmio e a torcedora pega em flagrante cometendo racismo, estamos tendo o desfile completo do mais abjeto racismo e endosso ao racismo fazendo troça de nossa racionalidade e enrustido na defesa da honra gauderia ou de uma suposta paixão ao Grêmio.

Não amigos, amor ao time tem limite e o limite é quando o que tá me jogo é nossa própria construção de valores.

Nem o fluminense me faz ser cúmplice de racismo homofobia e machismo, o Fluminense não é mais caro pra mim que minha humanidade e minha luta contra toda forma de opressão.

É triste o que tá acontecendo com cumplicidade de Felipão, do Grêmio e da mídia. É triste a redução do ato racista a um “ato impensado” ou “teatro do Aranha”. Triste porque revelador. Revelador não só do país racista, da mídia racista de um Rio Grande do sul onde o racismo é o menos velado do país, mas triste porque se liga o foda-se do senso crítico em nome do senso comum.

E ai se vê gente de esquerda, socialista, anarquista, etc, gente “de bem” passando a mão na cabeça de racismo em nome da paz, do Papai Noel de Quintino, do Ursinho Puff, das boas relações, da honra gauderia e do amor ao Grêmio.

São “coisas do futebol”, assim como o machismo, a misoginia, a xenofobia, o elitismo que chamava o futebol dos pobres de sururu no início do século XX.

São coisas do futebol como o Bangu jamais ser reconhecido como pioneiro da luta antirracista, sendo secundado pelo Vasco e perseguidos ambos história afora por serem clubes populares, de base popular e fabril.

São coisas do futebol como a homofobia internalizada. São coisas do futebol os mitos e a mitificação que suspende do futebol sua responsabilidade como espelho do cotidiano da sociedade brasileira. E é por causa dessas “coisas do futebol” que todo combate às opressões no Brasil esbarra no sentimento de bom mocismo em relação à sociedade racista.

“Não vamos exagerar”, afinal “somos todos amigos”. As disputas políticas se tratam assim, tudo é mediado, pontuado, ela defende o Bolsonaro, mas é uma boa pessoa. Dai pra chamar racismo de “Ato falho” é um pulo.

É triste e meu asco só aumenta. Um asco composto por anos de construção antirracista sendo esbofeteado pela covardia mau-caráter de milhares de pessoas que optam conscientemente por endossar racismo a se autocriticarem.

Eu nunca tive orgulho de ser branco, ser branco não é motivo de orgulho por ser uma cor da pele.

Eu teria orgulho de ser negro, exige um esforço cotidiano pra manter-se humano e altivo, pra manter-se são e arrotando sua identidade na fuça de gente imbecil orgulhosa de ser parte do lixo humano da sociedade. Ser negro é motivo de orgulho porque ninguém é negro impunemente.

Ser branco me causa cada vez mais asco, asco e revolta pro ser parte de uma minoria privilegiada, obtusa, incapaz de empatia e que se apega a todo sentimento possível de unidade no privilégio para combater qualquer mínimo avanço na luta antirracismo.

Eu tenho nojo de ser branco.

Notas sobre anarquistas, socialistas, eleição e outras histórias..

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Essa é basicamente a transcrição de comentários em um tópico sobre anarquistas, política, Luciana Genro e eleições feitas em uma comunidade anarquista.

As chances de dar merda com o PSOL no poder são demais, enormes e próximas. Acho que na corrida eleitoral de 2016 já dá merda.

Há avanços do PSOL no tensionamento à esquerda do cenário político na mesma proporção que recuos. A burocratização não é pequena, o discurso mais radical agora só foi adotado pela perda de espaço em relação à Marina e ao Eduardo Jorge. Ao contrário de Plínio, se tentou dosar pra ser mais palatável ao eleitor médio, não dando, se foi pro caminho da crítica aberta.

Considero importante pra caramba existir essa demarcação, mas os limites dela são visíveis, ainda mais conhecendo a correlação de forças interna.

No cenário presidencial, por exemplo, Lucana Genro faz um bom trabalho e tensiona pela esquerda, mas no RS ela inclusive foi parte do discurso de criminalização de lutadores, mesmo tendo parte dos seus presos e criminalizados, diferenciando bons lutadores perseguidos de maus lutadores e criminalizando quem não fazia parte de sua tática.

Aliás, foi parte de quem disse que Black Blocs atrapalhavam as lutas e afastava pessoas das ruas, permitindo o eco á mídia que ocultava que o que afastava era a repressão policial. Também sei que houve um nítido afastamento do PSOL dos companheiros anarquistas no RS.

No RJ a principal figura pública foi aos jornais dizendo que o PSOL precisava isolar os Black Bloc, isso no momento em que o Santiago morreu e houve uma megaoperação midiática de criminalizar todos, do PSOL à FIP, e a Sininho entre outros era perseguida cotidianamente. Isso logo depois deu na prisão de uma pá de lutadores pela polícia e na perseguição à Bakunin (risos).

Nesse meio tempo o apoio e o combate à repressão foi feito pelo PSOL de forma enrustida, negando-se a concretamente apoiar lutadores barbaramente perseguidos de forma pública.

Como discordava politicamente deles, se fez um jogo obscuro de apoio, ajudando pela militância de alguns psolistas no DDH, etc sem se envolver e ser enfático publicamente contra a perseguição.

Fosse uma justificativa apenas política vá lá, mas parte do problema se deu porque FIP, anarquistas, etc, são oposição sindical no principal sindicato onde o PSOL atua no RJ.

Aliás, essa ai foi a gota d’água pra minha saída do partido.

Tem uma avaliação que acho ruim de parte do discurso anarquista que é a do “está do lado do povo” ou “não está do lado do povo”.

Basicamente considero que todo socialista está em maior ou menor grau do lado das lutas populares, a divergência é tática e estratégica, não é de cunho moral ou de lado. Nós ou quem quer que seja entre os socialistas, quando estivermos na luta estamos do lado das lutas populares.

Na luta anti opressão é mais fácil ver anarquistas do lado dos partidos da esquerda socialista do que longe deles.

Na luta sindical há oposição óbvia, contra o estado idem, mas não dá pra dizer que os socialistas hoje estejam do lado do capital e longe do povo no sentido de defendê-lo.

Outro elemento é o “estar do lado do povo”. Via de regra confundimos defender os interesses das classes oprimidas e pela libertação do homem com estar do lado do povo. Estamos do lado do povo? Não. Estamos do lado da defesa de seus interesses. Estaremos do lado do povo quando o povo nos reconhecer como parceiros.

Então hoje infelizmente quem tá do lado do povo e é reconhecido pelo povo como parceiro não somos nós nem o PSOL, nem o PSTU, nem o PCB, na leitura do povo quem tá do lado dele é o PT.

O povo tá errado? Bem, na minha opinião sim, mas enquanto eu não convencê-lo disso é muita arrogância dizer que estou do lado dele e ele nem me vendo. É tipo namoro na pré-adolescência, o cara arruma uma namorada que não sabe que é namorada dele.

Sobre a honestidade da Luciana Genro e dos companheiros do PSOL,  eu acho que tem muita gente honesta lá, no PSTU, no PCB, como em todo movimento e partido.

Não acho que por serem lutadores que optam pela institucionalidade são desonestos automaticamente, aliás, nem o sujeito que milita no PT é automaticamente desonesto. É bom lembrar que estamos falando de pessoas que acreditam em seu projeto e que estão nas ruas. Há petistas ainda que lutam nas periferias do país e não são cooptados. São minoria do partido, mas não do espectro de lutas.Fazem um serviço meio sacana de manter uma mística socialista num partido ultraburocratizado, mas tão ali fazendo a luta.

No PSOL idem, tem gente honesta, muito, PSTU também, podem vir a se tornarem desonestos ou defenderem processos calhordas ou serem o endosso moral a projetos calhordas? Com certeza. Aliás, acho provável, mas as pessoas em si não são desonestas, acreditam no que falam e no que fazem, não buscam enriquecimento, não buscam uma posição de se tornaram capitalistas. Acho que a crítica não deveria passar por ai, mas pelo programa, pelo método, pela tética e pela estratégia.

Não adianta pagar de anarquista ou ecossocialista e não dar bom dia ao porteiro.

Semana_tragica

A reconstrução da política passa pela reconstrução dos modos de fazer política e de construir a ideia de política. Parece bazofia, mas é sério.

A política, como é entendida, é tida como naturalização da representatividade, da ideia de um sistema estatal, burocrático e onde democracia é a produção de delegação para a mediação entre quem vota e os ganhos de direitos, o estado, etc.

Se entende, portanto, política como a terceirização da própria vontade, depositada com fé nas urnas, aguardando que quem recebe o endosso para o exercício do poder contemple os desejos individuais e coletivos relativos a quem endossa.

Mas a política assim entendida não é restrita ao ato de votar, é restrita também como a externalização da própria responsabilidade e das lutas cotidianas. Ou seja, se entende a política como externa a si, como produzida pela relação das lutas cotidianas pra fora da gente e contra um ou vários inimigos externos, espantalhos produzidos pela necessidade prática de gerar moinhos de vento que agradem nossos Quixotes.

E é ai que a porca torce o rabo.

A luta política e a própria política entendida como algo externo, onde elegemos representantes de nossa vontade e atores que representam nosso papel concentrando vários papéis que lhe fornecem poder, externaliza questões que são de embate interno e externo.

Racismo e homofobia, machismo, misoginia e etnocentrismo nadam de braçada na gente, em nossos companheiros, nas lutas cotidianas, nos lugares de discurso e disputa política por excelência e permanecem sendo secundarizados, pois os inimigos sempre são eternos.

Os inimigos são o estado, são a direita, são os combustíveis fósseis, a recessão São sempre o outro, jamais nossa própria formação, nós mesmos e nossa participação no cotidiano político.

Por isso é fácil quem diz aos quatro ventos que quer transformar o planeta ignorar o próprio machismo, racismo, defesa de privilégios e se ofender com a dureza de quem combate isso com unhas, dentes, alma. Porque jamais se vê como parte do que se combate, jamais se cobra sinceramente que pra transformar o mundo é preciso também transformar-se e assumir a coerência necessária entre ideia e prática, ideia e ser.

Da mesma forma o fazer politica representa a imensa dificuldade de se transformar o locus privilegiado e hierárquico que foi construído em torno de nossa trajetória. Por isso é mato homens contra o aborto, brancos contra as cotas, socialistas a favor do petróleo, veganos machistas, socialistas e anarquistas punitivistas, anarquistas e socialistas homofóbicos, militantes e ativistas LGBT machistas e racistas, intelectuais produtivistas que se dizem ambientalistas achando que meio ambiente é só árvore, feministas transfóbicas e a lista é imensa.

Quando o inimigo é externo a nós, não interessa nossa própria desconstrução, o inimigo agora é outro. E isso se reflete na forma de se fazer política.

Pouco se apreende que diferenças entre lutadores sejam ultrapassáveis pelos pontos em comum e que é possível construir convergências. O inimigo sendo externo necessita de um foco que limita consensos e inclui entre inimigos todos os que criticam nosso modo de fazer política.

A lógica hierarquizada do fazer política não é apenas marxista ou de direita, é filha dileta da estrutura hierárquica, a mesma que pariu o estado. Ao eleger apenas o capitalismo como o grande vilão, e eleger como co-vilão tudo o que não luta contra o capitalismo da mesma forma como quem usa o processo hierárquico como mote, se estabelece a mesma lógica do inimigo externo e não se traduz o questionamento da hierarquia e da centralização como também um elemento estrutural a ser transformado.

E se o inimigo for a lógica civilizatória ocidental?

Da mesma forma que no racismo e no machismo, na homofobia, a negação da transformação por dentro do eixo hierárquico e centralizado como antípoda da liberdade é a secundarização da transformação do vertical em horizontal, é a negação da luta pela superação do estado ao negar-se superar o estado no interior dos próprios organismos que se dizem combatentes do estado e do capitalismo.

854565001213Nessa negação se constitui o eixo da incoerência da busca pelo comunismo com manutenção de estado tampão, pois essa busca estabelece que para se superar a verticalidade se mantém um espaço vertical de decisão coletiva, e esse espaço não contempla a desconstrução do estado no interior da cultura, ou seja, se nega a ideia da verticalidade e da centralidade opressora como estrutural, assim como o racismo, a homofobia, a misoginia. E ai o método é reflexo de um erro de origem.

O método de centralização e representatividade colocando como externo uma série de estruturas opressoras que devem ser transformadas, secundarizando sempre a maior parte delas em nome da derrubada do sistema, especialmente secundarizando a luta anti-hierárquica, autossabota a transformação estrutural.

Não se muda uma estrutura constituindo-se como seu espelho invertido. E por isso não se muda o estado sendo estado.

Da mesma forma não se muda a estrutura racista, machista, homofóbica, misógina, transfóbica sem mudar o eixo interno, da pessoa pro coletivo, do coletivo pro todo.

Por isso a reconstrução da política passa pela reconstrução dos modos de fazer política. E a reconstrução dos modos de fazer política passa pela reconstrução da ideia de política, de relação do indivíduo com o coletivo, da relação do indivíduo com a delegação de seu poder e com isso a reconstrução da ideia de política.

Por isso não basta se declarar libertário, ambientalista, socialista, ecossocialista ou inca venusiano. É preciso atuar e tem de atuar de fora pra dentro transformando todo o raio de comportamento e pensamento em uma ação prática cotidiana transformadora. Idem mudar a própria relação entre indivíduo e coletivo, coletivo e estado.

Não basta construir uma lógica de emancipação via planejamento democrático ou intervenção municipalista libertária sem transformar a relação entre coletivo e indivíduo, no plano da construção da horizontalidade e do questionamento a si mesmo e seu papel de reforço e reprodução de opressões e predações ambientais.

Não basta construir uma lógica de emancipação sem enxergar a si mesmo como parte da cultura hierarquizada de fábrica nascida no século XIX e se opta por não se transformar da origem produtivista e centralizada, hipernegadora do indivíduo e da liberdade, fiel na fé no progresso e no desenvolvimento das forças produtivas sem considerar recurso naturais, culturas e relações não ocidentais, formas sensíveis de relação com o mudo e o outro. Não adianta pregar uma emancipação que não se retira da própria ideia civilizatória hierarquizada e avessa ao outro.

Não adianta pagar de anarquista e ecossocialista reduzindo tudo á economia, ignorando ecologia, sendo contra o aborto, sendo contra as cotas, achando bonito só desfilar no Leblon.

Não adianta pagar de anarquista ou ecossocialista e não dar bom dia ao porteiro.

A política como espaço de socialização

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Sempre fiz e discuti política com dois elementos bastante presentes: A paixão e o senso de responsabilidade.

A paixão conduzia as ações e os pensamentos com uma intensidade que me é comum em todos os campos da minha vida. O senso de responsabilidade entendia que a política é a ferramenta de transformação da minha vida, da vida coletiva. que cada ação tem um eco e esse eco contribui pra vitória e para a derrota das ideias e da transformação da vida das pessoas. Ou seja, cada passo, cada ato tem um ônus e um bônus.

A quem acha que a ideia de me assumir anarquista foi um processo súbito, Ledo Ivo engano. A concessão foi à vida partidária, e uma longa com concessão de mais de dez anos, o processo súbito foi em 1998 acordar e entender que não me organizando como anarquista, não atuando no cotidiano não vendo espaço pra isso estava abdicando de ser um ator no processo de transformação social. Em 1998 optei por militar em partido, entendendo ali que precisava me organizar para influenciar politicamente, assumindo o ônus e o bônus da escolha, entre eles a hierarquia e a disciplina partidária. Como bônus um espaço de influência, um aparelho de influência cotidiana, um espaço de aprendizado.

A conjuntura em 1998 era uma conjuntura de profundo refluxo e de duas porradas na cabeça da esquerda nas eleições de 1989 e 1994, além do anarquismo ter sido atingido por duas ditaduras e pelo avanço da esquerda partidária de tal forma que seu espaço de organização havia sido reduzido de forma enorme. Antes disso havia militado em um coletivo autônomo na universidade, que defendia a autogestão, que atuava estudando clássicos anarquistas, mas que durou poucos anos.

Ao optar pela vida partidária abdiquei de muita coisa e abdiquei de uma autonomia que a disciplina não permitia. Primeiro no PT e depois no PSOL atuei de independente a sendo parte de correntes políticas internas e a que mais permitia autonomia tinha o limite da organização coletiva, ou seja, não permitia pela responsabilidade envolvida em fazer parte de um grupo que estava em um partido a autonomia que coletivos anarquistas possuem.

Em resumo optar por uma organização partidária não foi um passeio no parque, teve sues ônus e bônus, idem a opção pela militância anarquista e sua diversidade e falta de centralidade, tudo precisa de adaptação e entendimento pontual das diferenças.

A questão é que em todos os momentos e decisões arquei com o papel que exercia, entendia o tamanho da responsabilidade e agia com isso. Política não era um espaço de socialização e de exercício de uma consciência política feita sob medida para exibição no Cowntry Club.

Isso não faz de mim herói ou diferente, mas explica a ideia da paixão e da responsabilidade, explica o porque a construção da consciência passa antes pelo entendimento do papel da política na vida das pessoas.

Endossar opiniões, opções de voto, omissões, tudo isso funciona como alimento do processo político não sai no xixi, não é uma festa.

Quando se omite conscientemente a opção por uma lógica política neoliberal, omissa na questão LGBT, etc, em nome do que quer que seja se faz uma opção direta que endossa práticas políticas de governos. Não tem mimimi depois.

Política não é chá das cinco. A cobrança de posturas é parte fundamental dela.

Da mesma forma que se cobra consciência política do pobre que troca voto por tijolo, é preciso que intelectuais professores e jornalistas que trocam seu voto pela simples recusa a qualquer opção anticapitalista de superação do petismo, sejam cobrados pela sua opção consciente pelo neoliberalismo.

O operário que troca seu voto por tijolo tem uma ação política construída dentro de um arco de relações sociais, de solidariedade comunal inclusive, que tem muito pouca opção de fé em sistema, de pensamento estratégico e age com as armas que tem. Desorganizado ele tem muito mais noção dos limites de sua ação política e do papel do voto que o intelectual que finge não ver abraços de candidatos a militares, agronegócio e pastores homofóbicos.

Então, antes de falar em patrulha é interessante quem toma posições políticas públicas que entenda seu papel dentro do arco de disputas políticas, sua influência, sua atuação dentro do arco de táticas de disputa e assuma sua responsabilidade ao cumpri-lo.

Ao optar pela luta cotidiana e não pelo eleitoral preciso de uma ação de conscientização muto mais feroz, preciso de uma ação de diálogo que aponte para a luta dos indígenas no Paraguai, no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Peru ou em Belo Monte como uma luta integrada, como uma luta que opõe um conjunto de lutadores de anarquistas a socialistas partidários contra quem defende direta ou indiretamente o avanço do agronegócio e da mineração que a todos expõe e mata.

Ao optar pela organização descentralizada e pela campanha pelo voto nulo sei exatamente o que deixo de endossar, o porquê disso, o quanto opto conscientemente por não contribuir para a eleição de gente que é sim lutadora, o quanto influencio para ampliar a negação do sistema e especialmente o quanto isso prejudica quem se organiza em partido em posições minoritárias.

Quando opto por bater em Dilma e Marina e evitar bater diretamente nos partidos de esquerda não é simplesmente omissão. É tática. Não é ignorar o papel danoso que os partidos de esquerda assumem no endosso do sistema, é entender que esse papel ainda é um pape de confronto contra inimigos superiores. Esse papel não é por si só motivo para que abandone o que entendo ser fundamental, a negação do sistema, mas é um papel que precisa ser ao menos identificado como gradualmente menos píor que o das candidaturas majoritárias.

Bater em Dilma e Marina é bater nas principais candidaturas do capital hoje. Bater em Luciana, Iasi e Zé Maria é discutir o quanto contribuem para a permanência da disputa política nos moldes atuais ao cometerem inúmeros erros, deixarem de fora alguns elementos programáticos fundamentais, endossarem o sistema eleitoral e o estado, terem sido cúmplices em maior ou menor grau da criminalização dos ativistas não partidários, etc. Este bater tem de ter e vista diferenciar o locus onde atuam cada grupo. Algum deles é esperança? Não exatamente, mas Dilma e Marina são inimigas diretas.

A diferença entre eles é que socialistas partidários não estão no mesmo campo de defesa do estado que Dilma e Marina, atuam na luta anticapitalista, embora defendem o estado e isso deva ser combatido. Dima e marina são vieses diferentes do capitalismo e da gestão do estado, do apoio ao agronegócio.

Por isso é fundamental entender o tamanho de nossa responsabilidade e o quanto a política como espaço de socialização é FOTO-7_Inauguracao-do-Trapichao-Lamenha-Filho-Pele-e-Napoleao-Barbosa-1970um ataque à luta cotidiana. Tornar a política um teatro de discurso rebaixado, um desfile de bottons que pouco significam além da exibição de consciência política como se fosse resplendor de fantasia de carnaval, é lamentavelmente uma faceta da sociedade do espetáculo e um tiro na cabeça da responsabilidade política e da ação política. É a negação do assumir a responsabilidade da mensagem que se passa.

Ao assumir o papel de endosso do sistema que s opte ao menos pelo papel de transformá-lo e não o de manter a lógica de opressões e de exploração em voga nos governos que se sucedem. Que ao menos se sinalize uma ideia de transformação. Quando se opta apelas pelo assessório e pelo vislumbre da exposição da posição política chique da choperia oque se assume é que política pra quem faz isso é a supressão da responsabilidade coletiva, é apenas afirmação de uma individualidade vaidosa e arrogante.

Votar é abrir mão do poder pessoal em nome da representação deste poder por outro. Um outro que não só não tem nenhuma garantir de exercê-lo como quem votou deseja, como tem o aval de controlar o estado e o monopólio do uso da violência. E esta violência seja ativa ou passiva, afeta mais do que a individualidade. Assim como a gestão da economia.

Abrir mão do poder pessoal pra endossar recuo é uma irresponsabilidade gigante, ainda mais se a política é tratada como piada de salão.