Eu tenho nojo de ser branco

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Nasci branco, cresci branco, minha identidade branca jamais foi questionada ou ofendida ou humilhada, jamais me pôs pra andar no elevador de serviço, tampouco me levou a ser oprimido pela polícia ou a perder emprego por ser branco.

Ser branco não foi uma escolha e não me causa orgulho. Ser branco é um destino, algo que me foi imposto pela biologia. Ter orgulho de ser branco é como ter orgulho de não ser cadeirante ou orgulho por não usar óculos. É como ter orgulho por não ter nenhum tipo de mancha na carteira de privilégios. Branco e homem então é o alto da cadeia alimentar, se for rico é quase o morador do topo do Himalaia.

Não é difícil entender isso e uma mísera pesquisa no google dá margem à compreensão disso, desde pesquisa sobre renda até sobre ocupação de cargos públicos.

Como este texto enveredará pelo futebol podemos usá-lo como exemplo: No futebol há quase zero de dirigentes negros, técnicos negros, os negros participam como jogadores, seguranças, roupeiros ou torcedores. Negros como dirigentes e técnicos, supervisores, médicos? Pouquíssimos, quase zero.

Por que escrevo tudo isso? Porque o racismo é a mais abjeta forma de opressão que conheço. Racismo me enoja e cumplicidade com ele idem.

Adoraria optar por deixar de ser branco e ter mais que empatia com quem sofre racismo, mas não posso, nem me entendendo negro na cultura, na música, na fé, nos heróis. Essa suposta negritude que busco pra mim numa fantasia delirante é uma escolha que não me dá o ônus de ser negro.

Nos recentes episódio sobre Aranha, Torcida do Grêmio e a torcedora pega em flagrante cometendo racismo, estamos tendo o desfile completo do mais abjeto racismo e endosso ao racismo fazendo troça de nossa racionalidade e enrustido na defesa da honra gauderia ou de uma suposta paixão ao Grêmio.

Não amigos, amor ao time tem limite e o limite é quando o que tá me jogo é nossa própria construção de valores.

Nem o fluminense me faz ser cúmplice de racismo homofobia e machismo, o Fluminense não é mais caro pra mim que minha humanidade e minha luta contra toda forma de opressão.

É triste o que tá acontecendo com cumplicidade de Felipão, do Grêmio e da mídia. É triste a redução do ato racista a um “ato impensado” ou “teatro do Aranha”. Triste porque revelador. Revelador não só do país racista, da mídia racista de um Rio Grande do sul onde o racismo é o menos velado do país, mas triste porque se liga o foda-se do senso crítico em nome do senso comum.

E ai se vê gente de esquerda, socialista, anarquista, etc, gente “de bem” passando a mão na cabeça de racismo em nome da paz, do Papai Noel de Quintino, do Ursinho Puff, das boas relações, da honra gauderia e do amor ao Grêmio.

São “coisas do futebol”, assim como o machismo, a misoginia, a xenofobia, o elitismo que chamava o futebol dos pobres de sururu no início do século XX.

São coisas do futebol como o Bangu jamais ser reconhecido como pioneiro da luta antirracista, sendo secundado pelo Vasco e perseguidos ambos história afora por serem clubes populares, de base popular e fabril.

São coisas do futebol como a homofobia internalizada. São coisas do futebol os mitos e a mitificação que suspende do futebol sua responsabilidade como espelho do cotidiano da sociedade brasileira. E é por causa dessas “coisas do futebol” que todo combate às opressões no Brasil esbarra no sentimento de bom mocismo em relação à sociedade racista.

“Não vamos exagerar”, afinal “somos todos amigos”. As disputas políticas se tratam assim, tudo é mediado, pontuado, ela defende o Bolsonaro, mas é uma boa pessoa. Dai pra chamar racismo de “Ato falho” é um pulo.

É triste e meu asco só aumenta. Um asco composto por anos de construção antirracista sendo esbofeteado pela covardia mau-caráter de milhares de pessoas que optam conscientemente por endossar racismo a se autocriticarem.

Eu nunca tive orgulho de ser branco, ser branco não é motivo de orgulho por ser uma cor da pele.

Eu teria orgulho de ser negro, exige um esforço cotidiano pra manter-se humano e altivo, pra manter-se são e arrotando sua identidade na fuça de gente imbecil orgulhosa de ser parte do lixo humano da sociedade. Ser negro é motivo de orgulho porque ninguém é negro impunemente.

Ser branco me causa cada vez mais asco, asco e revolta pro ser parte de uma minoria privilegiada, obtusa, incapaz de empatia e que se apega a todo sentimento possível de unidade no privilégio para combater qualquer mínimo avanço na luta antirracismo.

Eu tenho nojo de ser branco.

Notas sobre anarquistas, socialistas, eleição e outras histórias..

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Essa é basicamente a transcrição de comentários em um tópico sobre anarquistas, política, Luciana Genro e eleições feitas em uma comunidade anarquista.

As chances de dar merda com o PSOL no poder são demais, enormes e próximas. Acho que na corrida eleitoral de 2016 já dá merda.

Há avanços do PSOL no tensionamento à esquerda do cenário político na mesma proporção que recuos. A burocratização não é pequena, o discurso mais radical agora só foi adotado pela perda de espaço em relação à Marina e ao Eduardo Jorge. Ao contrário de Plínio, se tentou dosar pra ser mais palatável ao eleitor médio, não dando, se foi pro caminho da crítica aberta.

Considero importante pra caramba existir essa demarcação, mas os limites dela são visíveis, ainda mais conhecendo a correlação de forças interna.

No cenário presidencial, por exemplo, Lucana Genro faz um bom trabalho e tensiona pela esquerda, mas no RS ela inclusive foi parte do discurso de criminalização de lutadores, mesmo tendo parte dos seus presos e criminalizados, diferenciando bons lutadores perseguidos de maus lutadores e criminalizando quem não fazia parte de sua tática.

Aliás, foi parte de quem disse que Black Blocs atrapalhavam as lutas e afastava pessoas das ruas, permitindo o eco á mídia que ocultava que o que afastava era a repressão policial. Também sei que houve um nítido afastamento do PSOL dos companheiros anarquistas no RS.

No RJ a principal figura pública foi aos jornais dizendo que o PSOL precisava isolar os Black Bloc, isso no momento em que o Santiago morreu e houve uma megaoperação midiática de criminalizar todos, do PSOL à FIP, e a Sininho entre outros era perseguida cotidianamente. Isso logo depois deu na prisão de uma pá de lutadores pela polícia e na perseguição à Bakunin (risos).

Nesse meio tempo o apoio e o combate à repressão foi feito pelo PSOL de forma enrustida, negando-se a concretamente apoiar lutadores barbaramente perseguidos de forma pública.

Como discordava politicamente deles, se fez um jogo obscuro de apoio, ajudando pela militância de alguns psolistas no DDH, etc sem se envolver e ser enfático publicamente contra a perseguição.

Fosse uma justificativa apenas política vá lá, mas parte do problema se deu porque FIP, anarquistas, etc, são oposição sindical no principal sindicato onde o PSOL atua no RJ.

Aliás, essa ai foi a gota d’água pra minha saída do partido.

Tem uma avaliação que acho ruim de parte do discurso anarquista que é a do “está do lado do povo” ou “não está do lado do povo”.

Basicamente considero que todo socialista está em maior ou menor grau do lado das lutas populares, a divergência é tática e estratégica, não é de cunho moral ou de lado. Nós ou quem quer que seja entre os socialistas, quando estivermos na luta estamos do lado das lutas populares.

Na luta anti opressão é mais fácil ver anarquistas do lado dos partidos da esquerda socialista do que longe deles.

Na luta sindical há oposição óbvia, contra o estado idem, mas não dá pra dizer que os socialistas hoje estejam do lado do capital e longe do povo no sentido de defendê-lo.

Outro elemento é o “estar do lado do povo”. Via de regra confundimos defender os interesses das classes oprimidas e pela libertação do homem com estar do lado do povo. Estamos do lado do povo? Não. Estamos do lado da defesa de seus interesses. Estaremos do lado do povo quando o povo nos reconhecer como parceiros.

Então hoje infelizmente quem tá do lado do povo e é reconhecido pelo povo como parceiro não somos nós nem o PSOL, nem o PSTU, nem o PCB, na leitura do povo quem tá do lado dele é o PT.

O povo tá errado? Bem, na minha opinião sim, mas enquanto eu não convencê-lo disso é muita arrogância dizer que estou do lado dele e ele nem me vendo. É tipo namoro na pré-adolescência, o cara arruma uma namorada que não sabe que é namorada dele.

Sobre a honestidade da Luciana Genro e dos companheiros do PSOL,  eu acho que tem muita gente honesta lá, no PSTU, no PCB, como em todo movimento e partido.

Não acho que por serem lutadores que optam pela institucionalidade são desonestos automaticamente, aliás, nem o sujeito que milita no PT é automaticamente desonesto. É bom lembrar que estamos falando de pessoas que acreditam em seu projeto e que estão nas ruas. Há petistas ainda que lutam nas periferias do país e não são cooptados. São minoria do partido, mas não do espectro de lutas.Fazem um serviço meio sacana de manter uma mística socialista num partido ultraburocratizado, mas tão ali fazendo a luta.

No PSOL idem, tem gente honesta, muito, PSTU também, podem vir a se tornarem desonestos ou defenderem processos calhordas ou serem o endosso moral a projetos calhordas? Com certeza. Aliás, acho provável, mas as pessoas em si não são desonestas, acreditam no que falam e no que fazem, não buscam enriquecimento, não buscam uma posição de se tornaram capitalistas. Acho que a crítica não deveria passar por ai, mas pelo programa, pelo método, pela tética e pela estratégia.

Não adianta pagar de anarquista ou ecossocialista e não dar bom dia ao porteiro.

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A reconstrução da política passa pela reconstrução dos modos de fazer política e de construir a ideia de política. Parece bazofia, mas é sério.

A política, como é entendida, é tida como naturalização da representatividade, da ideia de um sistema estatal, burocrático e onde democracia é a produção de delegação para a mediação entre quem vota e os ganhos de direitos, o estado, etc.

Se entende, portanto, política como a terceirização da própria vontade, depositada com fé nas urnas, aguardando que quem recebe o endosso para o exercício do poder contemple os desejos individuais e coletivos relativos a quem endossa.

Mas a política assim entendida não é restrita ao ato de votar, é restrita também como a externalização da própria responsabilidade e das lutas cotidianas. Ou seja, se entende a política como externa a si, como produzida pela relação das lutas cotidianas pra fora da gente e contra um ou vários inimigos externos, espantalhos produzidos pela necessidade prática de gerar moinhos de vento que agradem nossos Quixotes.

E é ai que a porca torce o rabo.

A luta política e a própria política entendida como algo externo, onde elegemos representantes de nossa vontade e atores que representam nosso papel concentrando vários papéis que lhe fornecem poder, externaliza questões que são de embate interno e externo.

Racismo e homofobia, machismo, misoginia e etnocentrismo nadam de braçada na gente, em nossos companheiros, nas lutas cotidianas, nos lugares de discurso e disputa política por excelência e permanecem sendo secundarizados, pois os inimigos sempre são eternos.

Os inimigos são o estado, são a direita, são os combustíveis fósseis, a recessão São sempre o outro, jamais nossa própria formação, nós mesmos e nossa participação no cotidiano político.

Por isso é fácil quem diz aos quatro ventos que quer transformar o planeta ignorar o próprio machismo, racismo, defesa de privilégios e se ofender com a dureza de quem combate isso com unhas, dentes, alma. Porque jamais se vê como parte do que se combate, jamais se cobra sinceramente que pra transformar o mundo é preciso também transformar-se e assumir a coerência necessária entre ideia e prática, ideia e ser.

Da mesma forma o fazer politica representa a imensa dificuldade de se transformar o locus privilegiado e hierárquico que foi construído em torno de nossa trajetória. Por isso é mato homens contra o aborto, brancos contra as cotas, socialistas a favor do petróleo, veganos machistas, socialistas e anarquistas punitivistas, anarquistas e socialistas homofóbicos, militantes e ativistas LGBT machistas e racistas, intelectuais produtivistas que se dizem ambientalistas achando que meio ambiente é só árvore, feministas transfóbicas e a lista é imensa.

Quando o inimigo é externo a nós, não interessa nossa própria desconstrução, o inimigo agora é outro. E isso se reflete na forma de se fazer política.

Pouco se apreende que diferenças entre lutadores sejam ultrapassáveis pelos pontos em comum e que é possível construir convergências. O inimigo sendo externo necessita de um foco que limita consensos e inclui entre inimigos todos os que criticam nosso modo de fazer política.

A lógica hierarquizada do fazer política não é apenas marxista ou de direita, é filha dileta da estrutura hierárquica, a mesma que pariu o estado. Ao eleger apenas o capitalismo como o grande vilão, e eleger como co-vilão tudo o que não luta contra o capitalismo da mesma forma como quem usa o processo hierárquico como mote, se estabelece a mesma lógica do inimigo externo e não se traduz o questionamento da hierarquia e da centralização como também um elemento estrutural a ser transformado.

E se o inimigo for a lógica civilizatória ocidental?

Da mesma forma que no racismo e no machismo, na homofobia, a negação da transformação por dentro do eixo hierárquico e centralizado como antípoda da liberdade é a secundarização da transformação do vertical em horizontal, é a negação da luta pela superação do estado ao negar-se superar o estado no interior dos próprios organismos que se dizem combatentes do estado e do capitalismo.

854565001213Nessa negação se constitui o eixo da incoerência da busca pelo comunismo com manutenção de estado tampão, pois essa busca estabelece que para se superar a verticalidade se mantém um espaço vertical de decisão coletiva, e esse espaço não contempla a desconstrução do estado no interior da cultura, ou seja, se nega a ideia da verticalidade e da centralidade opressora como estrutural, assim como o racismo, a homofobia, a misoginia. E ai o método é reflexo de um erro de origem.

O método de centralização e representatividade colocando como externo uma série de estruturas opressoras que devem ser transformadas, secundarizando sempre a maior parte delas em nome da derrubada do sistema, especialmente secundarizando a luta anti-hierárquica, autossabota a transformação estrutural.

Não se muda uma estrutura constituindo-se como seu espelho invertido. E por isso não se muda o estado sendo estado.

Da mesma forma não se muda a estrutura racista, machista, homofóbica, misógina, transfóbica sem mudar o eixo interno, da pessoa pro coletivo, do coletivo pro todo.

Por isso a reconstrução da política passa pela reconstrução dos modos de fazer política. E a reconstrução dos modos de fazer política passa pela reconstrução da ideia de política, de relação do indivíduo com o coletivo, da relação do indivíduo com a delegação de seu poder e com isso a reconstrução da ideia de política.

Por isso não basta se declarar libertário, ambientalista, socialista, ecossocialista ou inca venusiano. É preciso atuar e tem de atuar de fora pra dentro transformando todo o raio de comportamento e pensamento em uma ação prática cotidiana transformadora. Idem mudar a própria relação entre indivíduo e coletivo, coletivo e estado.

Não basta construir uma lógica de emancipação via planejamento democrático ou intervenção municipalista libertária sem transformar a relação entre coletivo e indivíduo, no plano da construção da horizontalidade e do questionamento a si mesmo e seu papel de reforço e reprodução de opressões e predações ambientais.

Não basta construir uma lógica de emancipação sem enxergar a si mesmo como parte da cultura hierarquizada de fábrica nascida no século XIX e se opta por não se transformar da origem produtivista e centralizada, hipernegadora do indivíduo e da liberdade, fiel na fé no progresso e no desenvolvimento das forças produtivas sem considerar recurso naturais, culturas e relações não ocidentais, formas sensíveis de relação com o mudo e o outro. Não adianta pregar uma emancipação que não se retira da própria ideia civilizatória hierarquizada e avessa ao outro.

Não adianta pagar de anarquista e ecossocialista reduzindo tudo á economia, ignorando ecologia, sendo contra o aborto, sendo contra as cotas, achando bonito só desfilar no Leblon.

Não adianta pagar de anarquista ou ecossocialista e não dar bom dia ao porteiro.

A política como espaço de socialização

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Sempre fiz e discuti política com dois elementos bastante presentes: A paixão e o senso de responsabilidade.

A paixão conduzia as ações e os pensamentos com uma intensidade que me é comum em todos os campos da minha vida. O senso de responsabilidade entendia que a política é a ferramenta de transformação da minha vida, da vida coletiva. que cada ação tem um eco e esse eco contribui pra vitória e para a derrota das ideias e da transformação da vida das pessoas. Ou seja, cada passo, cada ato tem um ônus e um bônus.

A quem acha que a ideia de me assumir anarquista foi um processo súbito, Ledo Ivo engano. A concessão foi à vida partidária, e uma longa com concessão de mais de dez anos, o processo súbito foi em 1998 acordar e entender que não me organizando como anarquista, não atuando no cotidiano não vendo espaço pra isso estava abdicando de ser um ator no processo de transformação social. Em 1998 optei por militar em partido, entendendo ali que precisava me organizar para influenciar politicamente, assumindo o ônus e o bônus da escolha, entre eles a hierarquia e a disciplina partidária. Como bônus um espaço de influência, um aparelho de influência cotidiana, um espaço de aprendizado.

A conjuntura em 1998 era uma conjuntura de profundo refluxo e de duas porradas na cabeça da esquerda nas eleições de 1989 e 1994, além do anarquismo ter sido atingido por duas ditaduras e pelo avanço da esquerda partidária de tal forma que seu espaço de organização havia sido reduzido de forma enorme. Antes disso havia militado em um coletivo autônomo na universidade, que defendia a autogestão, que atuava estudando clássicos anarquistas, mas que durou poucos anos.

Ao optar pela vida partidária abdiquei de muita coisa e abdiquei de uma autonomia que a disciplina não permitia. Primeiro no PT e depois no PSOL atuei de independente a sendo parte de correntes políticas internas e a que mais permitia autonomia tinha o limite da organização coletiva, ou seja, não permitia pela responsabilidade envolvida em fazer parte de um grupo que estava em um partido a autonomia que coletivos anarquistas possuem.

Em resumo optar por uma organização partidária não foi um passeio no parque, teve sues ônus e bônus, idem a opção pela militância anarquista e sua diversidade e falta de centralidade, tudo precisa de adaptação e entendimento pontual das diferenças.

A questão é que em todos os momentos e decisões arquei com o papel que exercia, entendia o tamanho da responsabilidade e agia com isso. Política não era um espaço de socialização e de exercício de uma consciência política feita sob medida para exibição no Cowntry Club.

Isso não faz de mim herói ou diferente, mas explica a ideia da paixão e da responsabilidade, explica o porque a construção da consciência passa antes pelo entendimento do papel da política na vida das pessoas.

Endossar opiniões, opções de voto, omissões, tudo isso funciona como alimento do processo político não sai no xixi, não é uma festa.

Quando se omite conscientemente a opção por uma lógica política neoliberal, omissa na questão LGBT, etc, em nome do que quer que seja se faz uma opção direta que endossa práticas políticas de governos. Não tem mimimi depois.

Política não é chá das cinco. A cobrança de posturas é parte fundamental dela.

Da mesma forma que se cobra consciência política do pobre que troca voto por tijolo, é preciso que intelectuais professores e jornalistas que trocam seu voto pela simples recusa a qualquer opção anticapitalista de superação do petismo, sejam cobrados pela sua opção consciente pelo neoliberalismo.

O operário que troca seu voto por tijolo tem uma ação política construída dentro de um arco de relações sociais, de solidariedade comunal inclusive, que tem muito pouca opção de fé em sistema, de pensamento estratégico e age com as armas que tem. Desorganizado ele tem muito mais noção dos limites de sua ação política e do papel do voto que o intelectual que finge não ver abraços de candidatos a militares, agronegócio e pastores homofóbicos.

Então, antes de falar em patrulha é interessante quem toma posições políticas públicas que entenda seu papel dentro do arco de disputas políticas, sua influência, sua atuação dentro do arco de táticas de disputa e assuma sua responsabilidade ao cumpri-lo.

Ao optar pela luta cotidiana e não pelo eleitoral preciso de uma ação de conscientização muto mais feroz, preciso de uma ação de diálogo que aponte para a luta dos indígenas no Paraguai, no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Peru ou em Belo Monte como uma luta integrada, como uma luta que opõe um conjunto de lutadores de anarquistas a socialistas partidários contra quem defende direta ou indiretamente o avanço do agronegócio e da mineração que a todos expõe e mata.

Ao optar pela organização descentralizada e pela campanha pelo voto nulo sei exatamente o que deixo de endossar, o porquê disso, o quanto opto conscientemente por não contribuir para a eleição de gente que é sim lutadora, o quanto influencio para ampliar a negação do sistema e especialmente o quanto isso prejudica quem se organiza em partido em posições minoritárias.

Quando opto por bater em Dilma e Marina e evitar bater diretamente nos partidos de esquerda não é simplesmente omissão. É tática. Não é ignorar o papel danoso que os partidos de esquerda assumem no endosso do sistema, é entender que esse papel ainda é um pape de confronto contra inimigos superiores. Esse papel não é por si só motivo para que abandone o que entendo ser fundamental, a negação do sistema, mas é um papel que precisa ser ao menos identificado como gradualmente menos píor que o das candidaturas majoritárias.

Bater em Dilma e Marina é bater nas principais candidaturas do capital hoje. Bater em Luciana, Iasi e Zé Maria é discutir o quanto contribuem para a permanência da disputa política nos moldes atuais ao cometerem inúmeros erros, deixarem de fora alguns elementos programáticos fundamentais, endossarem o sistema eleitoral e o estado, terem sido cúmplices em maior ou menor grau da criminalização dos ativistas não partidários, etc. Este bater tem de ter e vista diferenciar o locus onde atuam cada grupo. Algum deles é esperança? Não exatamente, mas Dilma e Marina são inimigas diretas.

A diferença entre eles é que socialistas partidários não estão no mesmo campo de defesa do estado que Dilma e Marina, atuam na luta anticapitalista, embora defendem o estado e isso deva ser combatido. Dima e marina são vieses diferentes do capitalismo e da gestão do estado, do apoio ao agronegócio.

Por isso é fundamental entender o tamanho de nossa responsabilidade e o quanto a política como espaço de socialização é FOTO-7_Inauguracao-do-Trapichao-Lamenha-Filho-Pele-e-Napoleao-Barbosa-1970um ataque à luta cotidiana. Tornar a política um teatro de discurso rebaixado, um desfile de bottons que pouco significam além da exibição de consciência política como se fosse resplendor de fantasia de carnaval, é lamentavelmente uma faceta da sociedade do espetáculo e um tiro na cabeça da responsabilidade política e da ação política. É a negação do assumir a responsabilidade da mensagem que se passa.

Ao assumir o papel de endosso do sistema que s opte ao menos pelo papel de transformá-lo e não o de manter a lógica de opressões e de exploração em voga nos governos que se sucedem. Que ao menos se sinalize uma ideia de transformação. Quando se opta apelas pelo assessório e pelo vislumbre da exposição da posição política chique da choperia oque se assume é que política pra quem faz isso é a supressão da responsabilidade coletiva, é apenas afirmação de uma individualidade vaidosa e arrogante.

Votar é abrir mão do poder pessoal em nome da representação deste poder por outro. Um outro que não só não tem nenhuma garantir de exercê-lo como quem votou deseja, como tem o aval de controlar o estado e o monopólio do uso da violência. E esta violência seja ativa ou passiva, afeta mais do que a individualidade. Assim como a gestão da economia.

Abrir mão do poder pessoal pra endossar recuo é uma irresponsabilidade gigante, ainda mais se a política é tratada como piada de salão.

Sobre Marina x Dilma ou Apenas Parem!

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Tirem-me algumas dúvidas, caros Marinistas. Quem construiu Belo Monte e Jirau? Dilma? Ok, correto. E quem se orgulhou em rede nacional de as ter licenciado quando era ministra do Meio ambiente do governo Lula? Marina. Pois, é.

Quem fez pressão para a liberação dos transgênicos? Lula e Dilma? Ok, correto. E quem se orgulhou em rede nacional de jamais ter sido contra os transgênicos e quem era ministra do Meio ambiente do governo Lula quando se liberou? Marina.

Sobre Banco Central e política econômica, etc, está no programa, idêntico ao do PSDB, por ter sido feito por crias do PSDB, o que não faz de Dilma melhor.

Só não me venham com o papo de que estão procurando alternativa, pois se estão é uma alternativa à direita de Dilma no campo econômico e idêntica a ela na maioria dos demais. No que difere não tem exatamente ganho qualitativo ou desvio de rota do neodesenvolvimentismo predatório, especialmente para indígenas e quilombolas. Estes tem como garantia um governo Marina que perpetuará boas relações com o agronegócio, ou seja, não vai frear o ataque a indígenas, etc. Não sou eu quem diz, é ela, em rede nacional, em encontro com ruralistas e etc.

Agora, querem permanecer apoiando? Boas festas e feliz ano novo, só assumam que é ideológico. Alternativas há com programas diferentes.

A opção por um programa nada ou quase nada diferente do de Dilma, especialmente para LGBT, e no que é diferente consegue ser pior, mesmo com todos os avisos, com todas as análises, configura uma opção ideológica. E digo mais: uma opção ideológica consciente de direita, capitalista, liberal, individualista, coxinha, zona sul, de uma “esquerda” que trata a política como espaço de socialização e não como espaço de luta.

“Ah, mas Luciana Genro recebe dinheiro da Gerdau!” , “Ah, mas Zé Maria é radical demodé!”, “Ah, mas Iasi é irrelevante e não abraça a questão ambiental!”…e seguem os trezentos argumentos sempre exigindo de quem tá à esquerda da opção ideológica o que for possível para que estes se aproximem da posição ideológica ou o que for impossível mesmo, para afastar a possibilidade de voto em alternativa programática.

O problema de Dilma para essas pessoas não é o programa, são pontos do programa. Aliás, nem isso, dado que a migração para Marina não quer sequer observar a similaridade gritante entre os programas. Fosse Dilma menos truculenta e mais enrustida na opção por abraçar Sarneys e por entubar em LGBTs, etc, a galera permaneceria como cheeerleader do governismo.

Jaspion“Ah, mas eu voto em Marina e voto/votei no Freixo!” e não notou mesmo a similaridade de discursos e de posição no cenário político? Jura que não nota porque o voto em Luciana te dá tanto asco? Porque se for lance de receber dinheiro de empresa recomendo ver a prestação de contas da campanha de 2012. Se for programa entre Freixo e Luciana aí complica porque não tem diferença nenhuma, tem a diferença da postura pública de busca de trânsito na mediação com o PT de um e negação disso por outra. E aí a opção por Marina e não por Luciana é eloquente.

O que salta aos olhos é que do voto nulo ao voto em PCB, PSTU, PSOL tem uma série de opções ideológicas pela esquerda, mas a opção é pela Marina e a opção é pela Marina com ataques à esquerda ou dramatização dos ataques recebidos chamando a esquerda de linha auxiliar do PT, mesmo com todos os avisos do programa recuado, a insistência que é uma aposta (como se fosse), para não assumir viés ideológico é um troço gritante. Gritante e irresponsável.

Interessante que jamais se aposta na esquerda.

Irresponsável porque opta por apostar do alto de uma situação social que lhe permite tratar política como corrida de cavalo e como trotoir pela rua da amargura e da mágoa de caboclo. A opção responsável e consciente pelo voto, pelo não voto ou pelo voto nulo é fábula aí. Não se assume uma política, se assume uma “radicalidade” pirracenta e nada radical, com muito mais de udenismo moralista chocado de ver “tudo que tá aí” enquanto caminha na praia do Leblon ou faz plano pra balada em restaurante caro.

No fim e ao cabo não se tem responsabilidade nenhuma concreta com mudança, com transformação, não se mexe concretamente para lutar contra mudanças climáticas, contra a TKCSA, contra a criminalização da homofobia, contra a dilapidação da educação…tudo isso é merda. A questão aí é um jogo novelesco, uma dramaturgia política onde heróis e vilões passeiam na urna em nome da satisfação pessoal da consciência política blasé exibida no convescote de domingo.

Se choca com a morte de homossexuais por homofobia? Porra nenhuma! Se se importasse votava na esquerda ou votava nulo e não em Dilma ou Marina.

Se importa com o meio ambiente? Nem por um caralho! Se se importasse não votaria nem em Dilma predatória nem em Marina condescendente e privatizadora de florestas, nenhuma delas com NENHUM programa de combate às mudanças climáticas, desmatamento zero, política de mobilidade sustentável, política indígena que combine demarcação com reconhecimento de identidade e programa de resgate identitário, idem para quilombolas. Nenhuma das duas sequer tangencia programa de transição energética, nadica.

Então vamos deixar de hipocrisia, please? Se no pós-2010 pagou-se muito de “eu fui enganado” e “eu não sabia” apesar de todos os avisos recebidos enquanto se chamava Plínio de “senil”, Zé Maria de Irrelevante e Ivan de “anacrônico”, no pós-2014 não vai colar. Os recuos de Marina são idênticos e ocorrem mais cedo que os de Dilma. E pior, com um programa neoliberal para ampliar o pesadelo.

Vão permanecer tratando política como convescote e espaço de socialização? Bacana, assumam então o viés ideológico classe média sofre, neoliberal, individualista, udenista e irresponsável, parem de pagar de esquerda, pois na hora do voto não são de esquerda e faz tempo.

Ah, eu voto nulo, a quem interessar possa e já descrevi isso aqui.

PS: comentários são moderados.

Coisas que me tiram do sério sobre aborto

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Eu tenho bloqueio mental, sério, um grave bloqueio mental com argumentos e com quem consegue discutir vida em um amontoado de células. Minha crença é contra, mas minha crença se baseia em conhecimento anterior à ciência, testes, mais testes, evidências, pesquisa, etc.

Pior, nego se baseia num livro escrito há milênios e pior ainda, em um livro cuja interpretação da Igreja aprovava o aborto até poucos séculos atrás.

E piora, quem é Kardecista e contra o aborto se baseia na opinião de um suposto espírito que supostamente ditou o conhecimento a um suposto médium.

Não, eu não duvido da existência de espíritos, nem nada disso, mas o suporte lógico de quem é contra o aborto e a legalização é baseado em nada.

O consenso científico sobre o limite do aborto, até 12 semanas, é sustentado por experimentação repetida, comprovada e sob julgamento da comunidade científica a partir de procedimentos mínimos comprováveis de terem sido feitos e passíveis de reprodução por outro.

E isso é reproduzido milhares de vezes, não são fenômenos isolados, não são um médium que recebe o apoio de centenas e até milhares de pessoas que jamais tentaram dialogar com o mesmo espírito que ele e comprovar este diálogo, que permanece sendo parte dos mistérios aceitos tacitamente como válidos pelos seguidores de determinado credo.

Respeito o conceito dos mistérios de cada fé, o que não respeito é que o conceito de mistérios de cada fé e da origem misteriosa do conhecimento da fé se sobreponha a uma imensa gama de conceitos científicos comprovados, estabelecidos como conhecimento a partir da comprovação pela comunidade científica não pela aceitação de mistérios, mas pela reprodução de experiências que tiveram o mesmo resultado da experiência original e que sim foi objeto de tentativa de refutação e negação.

Além do mais sua fé, nossa fé, a fé de quem quer que seja, não tem direito nenhum a se impor como lei a outrem. A fé é direito seu, enfie ele onde você quiser, mas a concepção dela sobre direito dos outros é irrelevante e é mais irrelevante ainda quando se baseia em uma gama de categorias de pensamento incapazes de resistir a qualquer observação científica séria por mais de cinco minutos.

A ciência erra? Ô se erra, mas ela erra e é exposta porque está sujeita a controle por seus pares e fora da comunidade científica, que tem de publicizar as descobertas e manter procedimentos verificáveis.

A fé se dispõe a isso? Não, jamais. E pior quando se tenta expor a fé a critérios de verificação não raro quem o tenta acaba sendo atacado como um intolerante e em um debate receber uma série de ad hominem e construção retórica rebaixada, que parte de sofismas para se apresentar como lógica.

E por que isso? Porque o conceito de verdade que embasa a argumentação da fé é misterioso e incapaz de ser exposto a um processo de verificação que garanta sua vericidade, por isso os argumentos não podem ir além do direito individual à fé, ao auto engano, ao estabelecimento da suspensão da descrença.

E sim, sou extremamente impaciente com isso. Tenho fé nos Orixás, acredito neles e tenho provas individuais de sua existência, jamais poderia provar pra outro a existência deles, mas acredito neles, e mesmo isso não me leva a levar a sério proibições religiosas da minha fé sobre ato A, B ou C, minha proibição aceita são a dos limites éticos e limites científicos dos atos.

Estes limites estão intimamente interligados e são coirmãos na lógica da sociabilidade, da ideia de convivência libertária, etc. O limite ético do aborto está na relação entre quem tem ou não vida e que vida se pretende manter viva ou não. Não consigo compreender quem entende que um feto sem terminações nervosas e comprovação de consciência tem mais direito à vida que uma mulher adulta plenamente consciente. O limite científico do aborto é o que comprova a existência de vida em um feto, a ciência diz que ela pode ser identificada a partir do desenvolvimento de um sistema nervoso central e a partir dai da dor, da consciência, da formação do indivíduo. Fora disso é aposta.

Juntando o limite científico e o ético é possível definir quem é contrário ao aborto, e sim falo do ato e da legalização, exacerba o direito de sua fé, exacerba o limite ético do julgamento do outro e a partir do julgamento, que sempre é uma reprodução da lógica de controle e do cerceamento social, oprime. Oprime e atua como extensão social da punição de quem faz ou deseja fazer o aborto por ter feito sexo sem o intuito de engravidar e ter filhos.

Por que digo isso? Porque o julgamento do aborto não é sobre a vida, é sobre o uso da mulher de seu corpo, e o fato de o sexo para as mulheres conter o risco da gravidez.

Ou seja, a gravidez é algo que a mulher é obrigada a manter por ser, segundo a fé, sua obrigação e sua “dádiva”. Com isso a mulher fazer sexo e engravidar dá a ela a obrigação de manter esta gravidez, dane-se a vontade dela. O ato sexual não foi pra isso? Dane-se ela, ela engravidou e isso é sagrado, é um dever que ela sofra nove meses com isso!

Os limites ético e científico do aborto são irrelevantes pra quem é contra o ato e sua legalização, porque o que tá em julgamento aqui não é o ato do aborto é o rompimento da obrigação imposta à mulher de uma castidade que jamais tente ter prazer dado que o sexo para ela é algo a ser feito apenas para a obtenção da gravidez e se ela foi ter prazer e por acaso engravidou que carregue consigo a gravidez que é ao fim e ao cabo a única função que interessa que a mulher tenha.

Esse é o cerne da negação do aborto, é controle sobre a mulher, satanizada desde Adão, e sobre a função única dela: Ter filhos. E esse cerne é um cerne religioso, teológico e de ética teológica, não precisa e nem quer comprovação científica ou debate científico e nem controle público sobre como se constroem as bases lógicas de seu argumento.

Por isso que minha aversão a quem se põe contra o aborto é uma aversão ética e política, por que quem nega o aborto e sua legalização é um militante da conservação, do status quo e da opressão sobre a mulher. Não há meio termo aqui, toda lógica ética envolvida a negação do aborto é uma lógica de opressão, anticientífica, anti cidadã, antiliberdade.

Toda essa estrutura é uma estrutura construída para dinamitar o ganho de direitos e de liberdade das mulheres sobre seus corpos, o ganho de direitos e de debate cívico sobre eles.

O debate sobre o aborto é antes de tudo um debate sobre liberdade e uma liberdade isonômica, quem é contra o aborto é contra direitos que não sejam contemplados na sua fé em Deus e em seus privilégios e portanto é meu inimigo.

 

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Algumas questões à Marina e a seu eleitorado

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Algumas coisas são sintomáticas e a metodologia de debate político demarca e demarca muito. Após um texto de Luciana Genro sobre Marina choveram ataques que foram do texto ser “Linha auxiliar do petismo” até comparações com textos da Fernanda Torres que batem na Marina pela direita. Sobre os argumentos nenhum comentário, ou seja, não se contra-argumenta, se ataca o crítico.

Duas coisas sobre isso, até pela similaridade com os métodos petistas do lulismo dilmista:

1 – Basicamente toda critica à Marina é desqualificada sem nenhuma resposta? Tem precedente e é ruim.

2 – Ad hominem contra quem critica? Tem precedente e é ruim.

E de resto zero de menção à André Lara Rezende, ausência de política ambiental para além de carta de intenções, zero de menção sobre Friboi e ANJ, zero de menção sobre o peso do Itaú na campanha.

Se isso é alternativa à Dilma é em que? Acenos distantes sobre apoio à união homossexual que não é a defesa do casamento civil igualitário? Nenhuma palavra sobre a promessa de 2010 de pôr a legalização do aborto pra ser decidida em plebiscito? Menção à sustentabilidade sem dizer como? Programa neoliberal com Gianetti concordando em método com Armínio Fraga?

Não é alternativa não, amigo.

Que sustentabilidade estamos falando? É uma sustentabilidade que investirá em mudança radical de matriz energética com substituição dos combustíveis fósseis em um programa de 20 anos de substituição por matrizes limpas? É uma sustentabilidade que mudará os modais de transporte para modais sustentáveis como transporte sobre trilho e integração intermodal com bicicletas? É uma sustentabilidade que descentralizará a produção agrícola com investimento na agroecologia familiar, em reforma agrárias e reorganização da distribuição de alimentos país afora reduzindo as emissões de carbono de transporte? É uma sustentabilidade que reorganiza a produção industrial e investimentos para redução da obsolência programa? É uma sustentabilidade que INTERROMPE o programa nuclear brasileiro e desativa Angra 1, 2 e 3?

E sobre energia? Teremos a descentralização do sistema energético e seu gerenciamento com planejamento democrático das decisões sobre geração e consumo?

Que sustentabilidade é essa?

E vamos além, o que Marina, A “alternativa”, fará de diferente de Dilma no que tange á dívida pública? Terá auditoria? Terá revisão da relação com o sistema financeiro?

E sobre habitação, terá apoio à redução do deficit habitacional com programas de habitação feitos pelo estado em conjunto com a sociedade e com transparência e não pelo mercado, sendo um braço da reforma urbana necessária pra inclusive atacar as causas das mudanças climáticas? Grandes terrenos serão desapropriados para assentar famílias que sofrem para pagar aluguel, residem em situação de risco e/ou em locais atingidos pelo racismo ambiental e pela injustiça social?

E sobre economia, Marina defende decrescimento ou planejamento democrático da economia ou defenderá princípios liberais de gestão da economia, hipercentralizado e desregulamentado?

E sobre indígenas e quilombolas? Teremos uma política de demarcação agressiva e reconhecimento de etnias e remanescentes sem que o agronegócio seja consultado? E sobre pescadores artesanais, ribeirinhos, atingidos por barragens, teremos uma política de justiça ambiental que os contemple e resolva o enorme passivo socioambiental em torno destes grupos?

E sobre mulheres, teremos uma política de reconhecimento da necessária legalização do aborto, de cuidados de saúde? E sobre Trans*, que política teremos? E LGBT?

Todos estas perguntas são perguntas de quem contesta o governo Dilma e o PT, Aécio e o PSDB, mas vai além, contesta o sistema e trabalha com soluções discutidas na sociedade, na academia, nos movimentos para problemas concretos do cotidiano, da sociedade brasileira e mais, da própria manutenção da vida na Terra.

São perguntas que quem quer ser alternativa tem de responder, a não ser que a alternativa seja apenas retirar Dilma do poder, e ai não contem comigo e assumam a escolha de lado, que não é o de alternativa nenhuma, nem ao sistema, nem ao estado, nem nada.

Até lá o jogo do espantalho construído como método pelo neo-petismo ao ser reproduzido por quem apoia Marina diz muito sobre os objetivos desta militância, e acreditem, não é bonito.

O comodismo dos autoproclamados radicais e as necessidades políticas cotidianas

Imagem4O PCO tem feito bons textos, tem feito boas intervenções em relação aos Black Bloc e à criminalização dos movimentos sociais e não é ironia. Se a prática do PCO é ruim, e é, a ação deles midiática não está sendo.

É cômodo atacarmos a produção do PCO pelo que o PCO é, é um vício comum não só na esquerda, mas principalmente, e eu mesmo incorri nisto. É cômodo, mas tá longe de ser responsável.

É sintomático e sectário a classificação de A ou B como “ridículos” pela prática e ignorar a boa produção que sim nos permite acúmulo de fôlego sobre a análise de realidade. E não estamos falando da Veja, estamos falando de um partido de esquerda que por pior que seja tem acúmulo excelente em diversas áreas, como o abolicionismo penal.

thatcher1Da mesma forma que o PT, ele mesmo, tem excelente acúmulo na questão do orçamento participativo, reforma urbana, moradia, etc e parte da REDE tem acúmulo ambiental que temos de ler e discutir.

Então é dever nosso, que nos entendemos como “mais qualificados”, ir além da adjetivação, precisamos tomar posições públicas ENQUANTO PARTIDO. Falta ao PSOL a coragem, inclusive teórica, de ir além da ladainha burocrática.

E se o PSTU no cotidiano é melhor parceiro que o PCO, na publicização de suas posições tem sido pavorosamente conservador, como alas do PSOL também.

É hora da esquerda sair do limite rígido de sua própria incompetência e qualificar os debates e se propor a eles de forma qualificada com o fim de avançar na conquista da hegemonia pela qualificação da percepção do cotidiano e não pelo discurso raso, fácil, encaixotado em definições imutáveis desde 1917.

leninE isso não para na questão Black Bloc, tampouco na análise das manifestações, do que é revolução, etc, continua na posição conservadora, tosca até, que ignora posições do próprio interior do partido nas questões antirracistas, anti-homofobia, de gênero, antimachistas e principalmente ambiental, onde a limitação teórica da maior parte da esquerda e do próprio interior do PSOL preferem publicar textos de um desenvolvimentista altamente produtivista e ex-governo Lula como Carlos Lessa do que expor, publicar, posições nascidas do próprio Setorial Nacional Paulo Piramba do PSOL.

Ignora-se o que é o partido, ignora-se o todo, ignora-se qualquer debate democrático para tirar posições públicas e coletivas em torno de absolutamente tudo, dos Black Bloc ao pré-sal.

hd-ddE isso tudo em nome de uma adequação oportunista do discurso do partido ao redor de pautas públicas publicáveis e “populares”. Em nome do discurso amaciado para a obtenção de votos se ignora solenemente questões fundamentais, sob o ponto de vista político, que são debatidas há anos no interior da militância. Seja a perspectiva de diferenciação entre o clássico e absoluto tema da forma partido, seja a lógica de produção e desenvolvimento relacionado à questão ecológica.

O entendimento da prioridade do que os outros (fora do partido) pensarão é mais forte do que o entendimento dos trâmites democráticos mínimos para a definição de temas consensuais.

esportes-radicais-paraquedasParece que a ameaça da exposição da fragilidade teórico-política ou da dúvida, a reles dúvida, enquanto ameaça de demolição do argumento de autoridade baseada no controle burocrático de aparatos é o único leitmotiv permitido para parte da esquerda do PSOL (a direita do PSOL relacionada a Randolfe Rodrigues nem menciono dado que ela ignora solenemente qualquer coisa que não seja o acúmulo primitivo de votos, a qualquer preço), que em meio ao fervoroso momento em que vivemos prefere ecoar de forma medrosa o discurso da ordem e o discurso “Pra frente Brasil” do que olhar para dentro, pro vasto acumulo de debates que núcleos e setoriais disponibilizam para qualificar quaisquer debates em torno dos mais variados temas, mas especialmente quanto às questões em eco hoje: Desmilitarização da polícia, fim dos combustíveis fósseis e aquecimento global, violência contra a mulher e direitos reprodutivos, luta anti-homofobia, etc.

Essa preferência é sintomática e mais que um sintoma de miopia, é um sintoma de política, é uma declaração eloquente do viés político levado a cabo para a busca de hegemonia interna e um viés político autoritário, de cima pra baixo, desconectado dos clamores políticos das ruas, das necessidades concretas do planeta, dos negros, índios, mulheres e LGBT.

calendario-dos-suricatos-radicais-motociclismo-1343574173265_864x500A opção produtivista, hierarquizadora de lutas, insensível à questão de gênero, racismo e LGBT e criminalizadora política dos Black Bloc é uma declaração eloquente da miopia política para além da burocracia, é uma declaração de miopia opcional.

É preciso mais do que autoproclamação de radicalidade para sê-lo, é preciso mais do que declarar que a prática é o critério da verdade, é preciso uma prática de verdade e ela passa por mais que discurso.

A ética da fofura e o espírito do desumanismo

images Na recente polêmica dos testes com animais muitas coisas forma vitimadas que não fazem parte da imagem do instituto Royal.

Uma das vítimas é a razoabilidade mínima, outra é a informação.

O princípio básico de que há uma modernidade tântrica e infalível no mundo que não é acompanhada pelo rincão sem pai nem mãe chamado Brasil, e que a ciência faz testes em animais só de sacanagem virou lei entre o planeta dos ativistas pelo direito animal mais agressivos.

O problema dessa lógica é que não dá pra dividir o mundo entre quem tá de sacanagem ou quem não tá, e nem reduzir a comunidade científica nacional a um bando de pobres-diabos que optam pro preguiça à metodologia mais escrota do mundo, ou por preguiça ou por falta de investimento.

animais-videos-extinçãoA ideia de substituir os testes com animais por outros tipos de testes não só não é nova, tampouco é circular apenas aos meandros “desenvolvidos” da divisão planetária. A discussão é enorme e sim há muito ativismo animal no meio científico, inclusive brasileiro, que entende como fundamental a transição paulatina para o fim dos testes com animais. Só que a substituição por portaria dos testes com animais por simulação em software ou opções piores não é assim tão simples, tampouco sem custo humano, em vidas, menos ainda tão fácil de ser reduzido ao que colunistas de jornal acham possível como “Testes com presos para comutação de pena”.

E não, problematizar a questão não é apoiar “tortura com animais para fazer pomadinha”, embora eu saiba que é tentador para quem acha que simplificando as questões se encontra solução, a satanização da discordância.

Problematizar a questão é buscar soluções dentro do plano concreto e não dentro do mundo de fantasia onde se resolvem coisas na canetada.

A ideia da suspensão imediata dos testes com animais nos leva à questões questão simples: Vamos interromper os testes científicos com substâncias e ir pro pau direto em seres humanos com o custo disso em vidas? Vamos optar pelo risco absoluto da simulação via software com o igual custo em vidas? Vamos optar por cultura de células humanas? Tá, mas isso funciona em todos os casos onde hoje se fazem testes com animais?

É amigos, ainda tem isso “testes com animais” não são feitos só pra “testar pomadinha”. Há questões onde se pode optar por suspender agora e há testes que não dá pra suspender em décadas.

0,,33380267-FMM,00Não vou comentar a lógica de testes com presidiários por uma questão ética, primeiro porque jogar com a liberdade de outrem mediante sacrifício é desumano, segundo porque é óbvia a lógica de desumanização do criminoso.

Testes com voluntários? Vamos lá em ordem e como Jack:

  1. Voluntários podem não aparecer.

  2. Voluntários remunerados são voluntários ou seria jogar com a miséria ou a pobreza em nome da ciência, o aspecto ético não entra ai?

  3. Os testes dando merda numa primeira fase teriam voluntários para uma segunda?

  4. Quem vigia o voluntariado?

Ou seja, toda a questão não é exatamente bolinho e nem tão fácil assim como se propaga no dia a dia, assim como outras tantas questões que eu inclusive defendo não são tão simples.

A lógica de suspensão do uso dos combustíveis fósseis também não dá pra ser por decreto e leva à substituição paulatina da própria matriz energética em uso no mundo, com programa de transição com garantia de emprego para quem trabalha na área, ou seja, é uma luta também antissistema.

Além de ser antissistema, a luta pela suspensão dos testes em animais depende também do avanço científico e mais, de um programa de transição que garanta a segurança inclusive dos próprios animais, dado que sim, medicamentos para animais também são feitos com testes em animais.

191c806fe8a746a4Não dá pra ignorar todos os fatores que trabalham em conjunto com a questão dos direitos animais, inclusive toda a questão cultural da própria relação homem e animal, homem e natureza. Não dá simplesmente para jogar isso pra fora abraçado com slogans e invasões de institutos e aulas de medicina, não é simples assim mudar o eixo de identidade humana como um todo, que passa também pela alimentação, na base da porrada. E não dá pra esquecer que gente honesta, sincera e esperta tá atuando para mudar o sistema de testes de dentro pra fora também e lutando além da lógica de supremacia antropocêntrica com os limites da própria ciência, que só nas últimas décadas se voltou para pensar no assunto.

Não é radical agir em nome da humanização de animais dentro da ética da fofura e desumanizar a humanidade em nome do espírito do desumanismo.

Não somos todos Beagles.

A verdade, o unilateralismo, a beleza, o índio, o negro e o black Bloc

images (1)Todo pensamento unilateral contém o inevitável autoritarismo. O entendimento de algo como uma verdade única, centrada em uma objetivação da realidade é automaticamente inibidor da diversidade e portanto da democracia.

Esta “ditadura” reflete-se na sociedade de muitas formas, desde a lógica do padrão de beleza unitário, que exclui gordas e negras do belo, até o entendimento da ideia de progresso como ligada intimamente ao aquecimento da economia, ao aumento de consumo, ao aumento e desenvolvimento das “forças produtivas”, como se fosse um ligar de uma locomotiva faminta e sem freios na direção do abismo.

201109070815340000004175Produzir significa acumular capital, conforme o pensamento hegemônico, produzir significa consumir matéria-prima e energia para que bens sejam construídos, consumidos em nome de um bem-estar intimamente ligado ao ter. Esta ideia de produção é o carro-chefe de uma ditadura de entendimento da realidade, de um pensamento único, que se vale da concepção que produzir, viver, ter, estar, morar são estados relacionados diretamente com a ideia de propriedade, com a ideia de economia com valoração de cada elemento ao redor do homem, inclusive ele, seja terra, ar, água, bichos, plantas, como se todos tivessem um preço, como se o valor de uso e troca fosse natural, nascesse com cada item da realidade ao redor do homem, líder máximo de uma lógica onde o homem é o centro do universo.

la-pensee-uniqueEsse entendimento é complementado com a recusa de percepção de qualquer outra forma de entender a realidade, de qualquer percepção cultural divergente, como passível de alguma “razão” ou sentido. A concepção de etnias indígenas da terra como parte de um organismo vivo, como elemento fulcral da existência deles para além da economia, da produção, do valor continente no uso da terra, vira anátema, pois bate de frente com a lógica, o pensamento único em torno do qual se ergue a economia e a lógica de vida ocidental, cristã, branca.

Outro aspecto da ditadura do pensamento único é a ótica do que é bom ou não para segmentos inteiros da população. Pobre morar na favela? Não pode e jamais passa na cabeça das pessoas a possibilidade urbanizar a favela, de que favela seja cidade. Greve? Atrapalha o trânsito. Proibir carro no centro das cidades? Atrapalha o direito individual da posse do automóvel, dane-se se o transporte coletivo permanece secundarizado em nome do individualismo egoísta, consumidor de combustíveis fósseis que aceleram os efeitos do aquecimento global. Lutar pelo fim dos combustíveis fósseis? Maluquice, a economia EXIGE crescimento e isso EXIGE energia, EXIGE, o conforto individual, a matriz energética em uso é o petróleo e não se fala mais nisso, energia renovável e alternativa são caras demais!

20090207_non.pensamento.unico.grandeE palavra em torno de muitas destas questões é “custo”, é a centralidade do “custo”, do aspecto monetário sobre todo e qualquer entendimento relativo à lógica do bem viver como mudança dos paradigmas de civilização, para além da precificação da vida, das pessoas, das cidades, da terra, das matas, do existir. O “custo” das coisas é central, o “custo” das coisas é o eixo em torno do qual giram a lógica que prioriza, hierarquiza o que deve ou não ter a economia direcionada para realizá-lo, ou seja, o que é prioritário para a população e sociedade é decidido em torno de “custo”.

E quem decide? Como se dá o processo “democrático” de decisão? Há democracia? Se chega ao todo todas as informações, todos os meios de decidir, o que está em jogo?

imagesPoderíamos elencar também problemas relacionados ao processo de veto à homossexualidade, de repressão à orientações sexuais diversas, à transsexualidade, à ideia do papel da mulher, à lógica de respeito à diversidade étnica, ao racismo, ao racismo ambiental e tantos outros efeitos da ditadura do pensamento único, que parte de uma hegemonia cultural elitista e chega aos jornais e Tvs e é reproduzida, naturalizada, tornada como um elemento dado da vida cotidiana, imutável, asfixiante.

E todo pensamento contra hegemônico é crime, é criminalizado.

Todo método contra hegemônico é crime, é afastamento do povo das lutas, é afastamento da regra, da lei, do bom comportamento, dos bons modos, do bom senso.

E é por isso que toda criminalização dos Black Bloc tem um pouco de navio negreiro.