O comodismo dos autoproclamados radicais e as necessidades políticas cotidianas

Imagem4O PCO tem feito bons textos, tem feito boas intervenções em relação aos Black Bloc e à criminalização dos movimentos sociais e não é ironia. Se a prática do PCO é ruim, e é, a ação deles midiática não está sendo.

É cômodo atacarmos a produção do PCO pelo que o PCO é, é um vício comum não só na esquerda, mas principalmente, e eu mesmo incorri nisto. É cômodo, mas tá longe de ser responsável.

É sintomático e sectário a classificação de A ou B como “ridículos” pela prática e ignorar a boa produção que sim nos permite acúmulo de fôlego sobre a análise de realidade. E não estamos falando da Veja, estamos falando de um partido de esquerda que por pior que seja tem acúmulo excelente em diversas áreas, como o abolicionismo penal.

thatcher1Da mesma forma que o PT, ele mesmo, tem excelente acúmulo na questão do orçamento participativo, reforma urbana, moradia, etc e parte da REDE tem acúmulo ambiental que temos de ler e discutir.

Então é dever nosso, que nos entendemos como “mais qualificados”, ir além da adjetivação, precisamos tomar posições públicas ENQUANTO PARTIDO. Falta ao PSOL a coragem, inclusive teórica, de ir além da ladainha burocrática.

E se o PSTU no cotidiano é melhor parceiro que o PCO, na publicização de suas posições tem sido pavorosamente conservador, como alas do PSOL também.

É hora da esquerda sair do limite rígido de sua própria incompetência e qualificar os debates e se propor a eles de forma qualificada com o fim de avançar na conquista da hegemonia pela qualificação da percepção do cotidiano e não pelo discurso raso, fácil, encaixotado em definições imutáveis desde 1917.

leninE isso não para na questão Black Bloc, tampouco na análise das manifestações, do que é revolução, etc, continua na posição conservadora, tosca até, que ignora posições do próprio interior do partido nas questões antirracistas, anti-homofobia, de gênero, antimachistas e principalmente ambiental, onde a limitação teórica da maior parte da esquerda e do próprio interior do PSOL preferem publicar textos de um desenvolvimentista altamente produtivista e ex-governo Lula como Carlos Lessa do que expor, publicar, posições nascidas do próprio Setorial Nacional Paulo Piramba do PSOL.

Ignora-se o que é o partido, ignora-se o todo, ignora-se qualquer debate democrático para tirar posições públicas e coletivas em torno de absolutamente tudo, dos Black Bloc ao pré-sal.

hd-ddE isso tudo em nome de uma adequação oportunista do discurso do partido ao redor de pautas públicas publicáveis e “populares”. Em nome do discurso amaciado para a obtenção de votos se ignora solenemente questões fundamentais, sob o ponto de vista político, que são debatidas há anos no interior da militância. Seja a perspectiva de diferenciação entre o clássico e absoluto tema da forma partido, seja a lógica de produção e desenvolvimento relacionado à questão ecológica.

O entendimento da prioridade do que os outros (fora do partido) pensarão é mais forte do que o entendimento dos trâmites democráticos mínimos para a definição de temas consensuais.

esportes-radicais-paraquedasParece que a ameaça da exposição da fragilidade teórico-política ou da dúvida, a reles dúvida, enquanto ameaça de demolição do argumento de autoridade baseada no controle burocrático de aparatos é o único leitmotiv permitido para parte da esquerda do PSOL (a direita do PSOL relacionada a Randolfe Rodrigues nem menciono dado que ela ignora solenemente qualquer coisa que não seja o acúmulo primitivo de votos, a qualquer preço), que em meio ao fervoroso momento em que vivemos prefere ecoar de forma medrosa o discurso da ordem e o discurso “Pra frente Brasil” do que olhar para dentro, pro vasto acumulo de debates que núcleos e setoriais disponibilizam para qualificar quaisquer debates em torno dos mais variados temas, mas especialmente quanto às questões em eco hoje: Desmilitarização da polícia, fim dos combustíveis fósseis e aquecimento global, violência contra a mulher e direitos reprodutivos, luta anti-homofobia, etc.

Essa preferência é sintomática e mais que um sintoma de miopia, é um sintoma de política, é uma declaração eloquente do viés político levado a cabo para a busca de hegemonia interna e um viés político autoritário, de cima pra baixo, desconectado dos clamores políticos das ruas, das necessidades concretas do planeta, dos negros, índios, mulheres e LGBT.

calendario-dos-suricatos-radicais-motociclismo-1343574173265_864x500A opção produtivista, hierarquizadora de lutas, insensível à questão de gênero, racismo e LGBT e criminalizadora política dos Black Bloc é uma declaração eloquente da miopia política para além da burocracia, é uma declaração de miopia opcional.

É preciso mais do que autoproclamação de radicalidade para sê-lo, é preciso mais do que declarar que a prática é o critério da verdade, é preciso uma prática de verdade e ela passa por mais que discurso.

A ética da fofura e o espírito do desumanismo

images Na recente polêmica dos testes com animais muitas coisas forma vitimadas que não fazem parte da imagem do instituto Royal.

Uma das vítimas é a razoabilidade mínima, outra é a informação.

O princípio básico de que há uma modernidade tântrica e infalível no mundo que não é acompanhada pelo rincão sem pai nem mãe chamado Brasil, e que a ciência faz testes em animais só de sacanagem virou lei entre o planeta dos ativistas pelo direito animal mais agressivos.

O problema dessa lógica é que não dá pra dividir o mundo entre quem tá de sacanagem ou quem não tá, e nem reduzir a comunidade científica nacional a um bando de pobres-diabos que optam pro preguiça à metodologia mais escrota do mundo, ou por preguiça ou por falta de investimento.

animais-videos-extinçãoA ideia de substituir os testes com animais por outros tipos de testes não só não é nova, tampouco é circular apenas aos meandros “desenvolvidos” da divisão planetária. A discussão é enorme e sim há muito ativismo animal no meio científico, inclusive brasileiro, que entende como fundamental a transição paulatina para o fim dos testes com animais. Só que a substituição por portaria dos testes com animais por simulação em software ou opções piores não é assim tão simples, tampouco sem custo humano, em vidas, menos ainda tão fácil de ser reduzido ao que colunistas de jornal acham possível como “Testes com presos para comutação de pena”.

E não, problematizar a questão não é apoiar “tortura com animais para fazer pomadinha”, embora eu saiba que é tentador para quem acha que simplificando as questões se encontra solução, a satanização da discordância.

Problematizar a questão é buscar soluções dentro do plano concreto e não dentro do mundo de fantasia onde se resolvem coisas na canetada.

A ideia da suspensão imediata dos testes com animais nos leva à questões questão simples: Vamos interromper os testes científicos com substâncias e ir pro pau direto em seres humanos com o custo disso em vidas? Vamos optar pelo risco absoluto da simulação via software com o igual custo em vidas? Vamos optar por cultura de células humanas? Tá, mas isso funciona em todos os casos onde hoje se fazem testes com animais?

É amigos, ainda tem isso “testes com animais” não são feitos só pra “testar pomadinha”. Há questões onde se pode optar por suspender agora e há testes que não dá pra suspender em décadas.

0,,33380267-FMM,00Não vou comentar a lógica de testes com presidiários por uma questão ética, primeiro porque jogar com a liberdade de outrem mediante sacrifício é desumano, segundo porque é óbvia a lógica de desumanização do criminoso.

Testes com voluntários? Vamos lá em ordem e como Jack:

  1. Voluntários podem não aparecer.

  2. Voluntários remunerados são voluntários ou seria jogar com a miséria ou a pobreza em nome da ciência, o aspecto ético não entra ai?

  3. Os testes dando merda numa primeira fase teriam voluntários para uma segunda?

  4. Quem vigia o voluntariado?

Ou seja, toda a questão não é exatamente bolinho e nem tão fácil assim como se propaga no dia a dia, assim como outras tantas questões que eu inclusive defendo não são tão simples.

A lógica de suspensão do uso dos combustíveis fósseis também não dá pra ser por decreto e leva à substituição paulatina da própria matriz energética em uso no mundo, com programa de transição com garantia de emprego para quem trabalha na área, ou seja, é uma luta também antissistema.

Além de ser antissistema, a luta pela suspensão dos testes em animais depende também do avanço científico e mais, de um programa de transição que garanta a segurança inclusive dos próprios animais, dado que sim, medicamentos para animais também são feitos com testes em animais.

191c806fe8a746a4Não dá pra ignorar todos os fatores que trabalham em conjunto com a questão dos direitos animais, inclusive toda a questão cultural da própria relação homem e animal, homem e natureza. Não dá simplesmente para jogar isso pra fora abraçado com slogans e invasões de institutos e aulas de medicina, não é simples assim mudar o eixo de identidade humana como um todo, que passa também pela alimentação, na base da porrada. E não dá pra esquecer que gente honesta, sincera e esperta tá atuando para mudar o sistema de testes de dentro pra fora também e lutando além da lógica de supremacia antropocêntrica com os limites da própria ciência, que só nas últimas décadas se voltou para pensar no assunto.

Não é radical agir em nome da humanização de animais dentro da ética da fofura e desumanizar a humanidade em nome do espírito do desumanismo.

Não somos todos Beagles.

A verdade, o unilateralismo, a beleza, o índio, o negro e o black Bloc

images (1)Todo pensamento unilateral contém o inevitável autoritarismo. O entendimento de algo como uma verdade única, centrada em uma objetivação da realidade é automaticamente inibidor da diversidade e portanto da democracia.

Esta “ditadura” reflete-se na sociedade de muitas formas, desde a lógica do padrão de beleza unitário, que exclui gordas e negras do belo, até o entendimento da ideia de progresso como ligada intimamente ao aquecimento da economia, ao aumento de consumo, ao aumento e desenvolvimento das “forças produtivas”, como se fosse um ligar de uma locomotiva faminta e sem freios na direção do abismo.

201109070815340000004175Produzir significa acumular capital, conforme o pensamento hegemônico, produzir significa consumir matéria-prima e energia para que bens sejam construídos, consumidos em nome de um bem-estar intimamente ligado ao ter. Esta ideia de produção é o carro-chefe de uma ditadura de entendimento da realidade, de um pensamento único, que se vale da concepção que produzir, viver, ter, estar, morar são estados relacionados diretamente com a ideia de propriedade, com a ideia de economia com valoração de cada elemento ao redor do homem, inclusive ele, seja terra, ar, água, bichos, plantas, como se todos tivessem um preço, como se o valor de uso e troca fosse natural, nascesse com cada item da realidade ao redor do homem, líder máximo de uma lógica onde o homem é o centro do universo.

la-pensee-uniqueEsse entendimento é complementado com a recusa de percepção de qualquer outra forma de entender a realidade, de qualquer percepção cultural divergente, como passível de alguma “razão” ou sentido. A concepção de etnias indígenas da terra como parte de um organismo vivo, como elemento fulcral da existência deles para além da economia, da produção, do valor continente no uso da terra, vira anátema, pois bate de frente com a lógica, o pensamento único em torno do qual se ergue a economia e a lógica de vida ocidental, cristã, branca.

Outro aspecto da ditadura do pensamento único é a ótica do que é bom ou não para segmentos inteiros da população. Pobre morar na favela? Não pode e jamais passa na cabeça das pessoas a possibilidade urbanizar a favela, de que favela seja cidade. Greve? Atrapalha o trânsito. Proibir carro no centro das cidades? Atrapalha o direito individual da posse do automóvel, dane-se se o transporte coletivo permanece secundarizado em nome do individualismo egoísta, consumidor de combustíveis fósseis que aceleram os efeitos do aquecimento global. Lutar pelo fim dos combustíveis fósseis? Maluquice, a economia EXIGE crescimento e isso EXIGE energia, EXIGE, o conforto individual, a matriz energética em uso é o petróleo e não se fala mais nisso, energia renovável e alternativa são caras demais!

20090207_non.pensamento.unico.grandeE palavra em torno de muitas destas questões é “custo”, é a centralidade do “custo”, do aspecto monetário sobre todo e qualquer entendimento relativo à lógica do bem viver como mudança dos paradigmas de civilização, para além da precificação da vida, das pessoas, das cidades, da terra, das matas, do existir. O “custo” das coisas é central, o “custo” das coisas é o eixo em torno do qual giram a lógica que prioriza, hierarquiza o que deve ou não ter a economia direcionada para realizá-lo, ou seja, o que é prioritário para a população e sociedade é decidido em torno de “custo”.

E quem decide? Como se dá o processo “democrático” de decisão? Há democracia? Se chega ao todo todas as informações, todos os meios de decidir, o que está em jogo?

imagesPoderíamos elencar também problemas relacionados ao processo de veto à homossexualidade, de repressão à orientações sexuais diversas, à transsexualidade, à ideia do papel da mulher, à lógica de respeito à diversidade étnica, ao racismo, ao racismo ambiental e tantos outros efeitos da ditadura do pensamento único, que parte de uma hegemonia cultural elitista e chega aos jornais e Tvs e é reproduzida, naturalizada, tornada como um elemento dado da vida cotidiana, imutável, asfixiante.

E todo pensamento contra hegemônico é crime, é criminalizado.

Todo método contra hegemônico é crime, é afastamento do povo das lutas, é afastamento da regra, da lei, do bom comportamento, dos bons modos, do bom senso.

E é por isso que toda criminalização dos Black Bloc tem um pouco de navio negreiro.

A centralidade da questão Black Bloc para a esquerda

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Falar de black bloc está muito além de uma análise local, pontual sobre manifestações e ação direta. Muito além de discutir sobre método, sobre a concretização do processo revolucionário, sobre a famosa correlação de forças, sobre ascenso ou descenso de lutas.

Falar sobre Black Bloc é um cerne da crítica da relação entre Esquerda e institucionalidade, entre a Esquerda e a ordem, o estado penal, a percepção de base e da base, a ideia de democracia, a separação entre a reação do oprimido e a violência do opressor.

Como eixo de parte do discurso da esquerda socialista temos um mal-estar gigantesco com a ação direta pelo descontrole visível que tem sobre pessoas, jovens, que atuam de forma diametralmente oposta à sua lógica particular de ação e inclusive de centralismo.

Seja na USP ou na cinelândia, o atropelamento da esquerda pela conjuntura e pelas bases é nítido, chega a ser espetacular. Se diz que os Black Bloc “invadem”, “desobedecem” a “direção” dos atos e pro isso afastam (como se fosse universal) as pessoas dos atos e “justificam a violência policial” como se a Polícia militar precisasse de justificativa pra descer o sarrafo.

images (1)Para negar o que ocorreu em recentes assembleias quando a base do SEPE-RJ decidiu um manifesto em apoio aos Black bloc, culpam a base anarquista por ter inserido isso, ignorando que os demais da base o aprovaram. Para negar a relação íntima entre a base sindical dos professores e estes que os defendem/defenderam de bombas e do cassetete se apoiam nas declarações das direções, ignorando que nas bases há um profundo sentimento de gratidão, que há muitos professores, a maioria dos que conversei sendo do PSOL como eu, que viram e conversaram com os satanizados Black Bloc, e tiveram neles pedidos de autorização para atuarem na defesa dos professores, do acampamento na câmara, etc.

Para negar que há sim uma má vontade criminalizadora dos Black bloc se apoiam numa democracia feita sob medida pro discurso localizado nas universidades e não muito mais: Discutimos em assembleias e assembleias sobre o ato e decidimos. E o ato se ganhasse força de quem não participou delas, como faz? Criminaliza? Se fosse o MST? Se fosse o MAB, o MTST, o Movimento Hip Hop, a APAFUNK? E se fosse uma comunidade de periferia que em apoio à USP se deslocasse até o ato e por muitas razões razoabilíssimas, confrontassem os Policiais? Criminalizaríamos? Não compactuaríamos com as depredações?

black-blocs-2E a tez, a cor dos jovens Black Bloc? A lógica, o linguajar, a forma de andar, se vestir, pensar? Sabem? Querem saber? Porque em muitos casos, na minha ótica na maioria, são negros, jovens, precarizados, frutos da recente lógica desenvolvimentista que varreu o país com crediários e PRO-UNIS e que se serviu de muitos jovens para a propaganda do Brasil Grande e não lhes deu transporte, saúde, emprego, casa, saneamento, futuro. E esses jovens aprenderem a ler o mundo entendendo-se excluídos, entendendo-se fora do jogo, entendendo-se a carne mais barata do mercado.

Nesses jovens a raiva dá pra parar, pra interromper, mas a fome de vida, de luta de melhorar, de construir um mundo onde possam confiar em mais que neles mesmos e nos a seu lado, não dá pra interromper.

A raiva e a fome é coisa dos ômi.

E o que fazemos enquanto esquerda? E sim, estou falando do PSOL, partido do qual faço parte e cujas declarações públicas efetuadas na fundação Lauro Campos e PSOL-RS foram lamentavelmente amestradas, colocadas como similares ao discurso da ordem se não enfaticamente, por medo, por uma lógica de se separar da ação dos “Vândalos”, se separar do que a ordem entende como atrapalhador das manifestações “Pacificas”, E o que fazemos enquanto esquerda? Criminalizamos, se não legalmente, politicamente.

imagesEstas declarações públicas enquanto partido foram as únicas públicas, não houve declaração do PSOL nacional, ou dos demais estados, portanto fica como a cara pública de um partido onde esta questão está longe de vista pelo coletivo de acordo com a vertente citada acima.

É esta cara que o PSOL quer dar aos presos, criminalizados, espancados, que sofreram bala, que apanharam e respiraram gás para deter o avanço das tropas de choque, no Rio, no Cocó em Fortaleza, em Salvador, em Brasília? Que segura o avanço da polícia nas ocupações de prédios públicos Brasil e mundo afora? É este discurso que o PSOL quer comprar como seu?

Porque é preciso estar atento e forte, não há muito tempo de se temer a morte física enquanto a morte política não é apenas um fantasma assombrando a Europa. Não dá para esquecermos que questões internas se relacionam com questões externas, que um discurso aqui se relaciona com a cara do companheiro a seu lado em um ato acolá, e com as pontes, e com os diálogos e com as caras, os preços, a porrada no lombo.

Assim como à mulher de césar, não basta parecer esquerda.

Não dá simplesmente para esquecermos nosso papel como “Partido Necessário” em um debate cuja centralidade está, antes de apoiarmos ou não os Black bloc, em combatermos a violência do estado, a escalada autoritária da sociedade, que passa por Feliciano, Bolsonaro, exército no Leilão de Libra, Cabral, Paes, Wagner, Agnelo e Tarso.

Não foram os Black Bloc que prenderam nossos companheiros, foi a polícia.

Não foram os Black Bloc que nos chamaram de “Vândalos”, foi a mídia.

Queremos ser a esquerda que temerosa de ser radical, embora se diga radical, tem medo de assumir os riscos inerentes das posições políticas necessárias?

Queremos ser a esquerda que com medo da onda fica na areia comentando a onda e dizendo que o mar tá bravo? Ou que quer dirigir as ondas e não surfar nelas?

black-bloc3-400x230Queremos ser a esquerda que criminalizou a rebelião de Watts em 1965? Queremos ser a esquerda que condenou a luta armada na resistência à ditadura? Queremos ser a esquerda que diria que a Revolta da Vacina seria um erro, porque depredaria patrimônio público (Sendo tal público muitas vezes agências do Itaú)?

Que esquerda queremos ser? Domada ou revolucionária?

A revolução não cresce em árvore, e nem espera, não tem régua pra medir revolução, nem manual. E sim, é desorientador o processo de rebelião, revolução, revolta, é sim assustador, como é o primeiro ato sexual, como é a primeira onda nadada e surfada, como é a primeira vez que enfrentamos o desconhecido, assim como é natural apelarmos para a ordem e segurança sob a qual fomos educados anos a fio. O que não é natural, embora nada deva parecer natural, é passado o tempo ficarmos presos ao medo em vez de avançar e avançar para compreender, avançar para entender, avançar para dialogar.

O que não é natural é em nome de votos, cargos, posições sociais, financiamentos, ou sei lá o que mais, emularmos timidamente o discurso da ordem protegendo como patrimônio público a vitrine do Itaú. Culparmos os Black Bloc por atos não funcionarem cheios sempre, como se apenas o medo da violência afastasse as pessoas dos atos e não o dirigismo, e não o oportunismo e não o aparelhamento.

Porque o medo da violência não afasta as pessoas dos atos do Rio, carro-chefe do pau quebrando?

É uma pergunta cujas respostas fáceis são muitas, mas não será porque há uma demanda de opressão radicalizada esperando um diálogo amplo, maior e construtivo para além da formatação do outro em um igual a nós? Não será porque com toda a esquerda presente seja obrigada a democraticamente dialogar, pela obrigatoriedade de não implodir tudo em mil pedaços de nada? Não será porque há uma profunda crítica à violência do estado já enraizada na academia do Rio e que não cai na esparrela de esperar carinho de quem foi criado para ser capitão do mato oficial do Estado?

images (2)O que queremos ser? O que tememos? O que medimos como régua de nossos valores e posição públicas? A correção analítica que se não apoia não criminaliza e tenta explicar? Ou a posição acomodada que apenas reproduz o discurso que cai bem nos ouvidos da dona Benta do Sítio do Pica Pau Amarelo que adora ouvir falar em justiça social, contra a corrupção, sem problematizar muito tudo isso?

Vamos ser a esquerda que exige punitivismo penal? Vamos ser a esquerda que diz que os jovens presos nas manifestações são sim criminosos pois atrapalham nossos atos?

Se formos não contem comigo, não serei cúmplice de mais uma negação dos riots de Watts.

A Esquerda, os Black bloc e a mídia

green-bloc-black-bloc-g8-rostock-2007A esquerda gira qual a pomba e se perde no próprio critério da análise do que lhe escapa enquanto força motriz de movimentos e ação. As análises sobre os Black Bloc circulam no eixo “A mídia os usa para nos desqualificar” e “lhes falta organicidade, lhes falta estratégia, lhes falta centralismo”.

O medo pânico do não entendimento do que flutua e foge dos códigos tidos como aceitáveis pela forma-partido tradicional é primo-irmão do entendimento que o socialismo está automaticamente na vanguarda do mundo, ou seja, o socialista é antes de tudo prafrentex.

imagesSó que não,né? O socialista é gente e o socialismo tem quase duzentos anos, portanto parte dele criou craca, apesar dos esforços do Papai Noel do Socialismo, ele, o Marx, em criar uma metodologia de análise da sociedade e do capitalismo que pela dialética fosse de certa forma “auto-limpante” ou imune aos efeitos do tempo. Ao menos outros marxistas como Benjamin, Thompson, Marcuse, Foster,  Bensaid, Lowy procuram fazer de Marx mais do que um pré-Lênin criador da solução final teórica.

No entanto a gente fica em um movimento cíclico de citação do uso dos BB para desqualificação de movimentos, da falta de organicidade, do papel ameaçador que tem para os partidos, que em tese seriam o sujeito da revolução por excelência,etc e tal sem no entanto que o cerne  da questão Black Bloc seja corretamente trabalhado. E quando digo corretamente digo que a própria lógica do que são os BB tá sendo distorcida e não posso, nem acho que nenhum socialista deva, se posicionar com a qualificação dos BB que a mídia conservadora faça.

QUEBRA-QUEBRA-440x293E eu não consigo compreender como “as ações dos Black Bloc” seja vista desatrelada do objetivo tático deles dentro das manifestações: Interromper o avanço das forças de repressão NAQUELE ATO/MANIFESTAÇÃO.

Fora que a repetição ad infinitum do uso que a mídia faz dos BB para desqualificar atos/manifestações da categoria a ou b contém o que ouso chamar de uma ingenuidade atroz. Porque qualquer luta/manifestação/ato que atue de forma contra hegemônica jamais vai ter simpatia da mídia ou vai ser alvo de qualquer objetivo da mídia que não seja a desqualificação. E se não tiver o quebra-quebra (Que no caso dos BB é uma ação consciente de desvio do foco da manifestação para eles com o fim de ajudar na dispersão do ato após violência policial), vai ser um “confronto” inventado, ou uma discussão entre professor e PM, alguma coisa, como tantas vezes ocorreu, como tantas vezes sabemos que existe,etc.

images (1)Nos atos da copa das confederações a PM sentou a porrada pela simples aproximação da área do Maracanã e no primeiro ato não teve nenhum quebra-quebra, mas os manifestantes “entraram, em confronto com a polícia que atuou para dispersá-los’ segundo a mídia.

A gente vai mesmo pautar nossas análises no beneplácito da mídia que atua, como bem disse Gramsci, em momentos de crise como partido da burguesia?

Quando citam os BB como um grupo esquecem que não é um grupo, uma organização na acepção do termo e enquanto for lido como tal (como se tivesse um objetivo estratégico/tático, organicidade,etc) e com o viés de qualificação deles como co-responsáveis pela desqualificação que a mídia faz de atos contra-hegemônicos, não vai ser entendido, sequer vai ser cheirado.

01 Arnaldo Antunes nao creia em tudoE digo mais o preconceito que está existindo nas análises diz demais de uma lógica que na verdade reflete a doutrinação midiática sobre atos/manifestações.

A Mídia é nossa inimiga, os BB não.

Os Black Bloc, a ladainha e o chatolino

downloadBem, sob pena de ser chato e repetitivo: Os Black Bloc não são um movimento. Sem nenhuma tentativa de ironizar ou desqualificar o interlocutor: Me surpreende a dificuldade que parte da esquerda tem de entender que os Black Bloc não são um movimento e não possuem táticas que visem acúmulo pras lutas.

Além disso, os Black Bloc não necessariamente são os mesmos que quebram Bancos, pontos de ônibus e MacDonalds, embora em Seattle e Genova esse tipo de protesto tenha ocorrido por uma parte das pessoas que se organizavam no bloco preto, que é o que na verdade são os black bloc.

black-blocBlack Bloc é uma identificação externa de um bloco dentro de uma manifestação que se organiza de forma defensiva, de forma a impedir o avanço dos choques. A tática de movimento é ocasional, é organizarem-se a cada manifestação de forma a defenderem o resto do ato dos avanços das polícias. A lógica começou nos anos 1970 por autonomistas alemães, a maioria marxistas, e ganhou na Europa outras cores com adesão de anarquistas, anarco punks e punks, muitas vezes organizados também nas ocupações urbanas.

Nas manifestações antiglobalização dos anos 90/2000 se espalharam mundo afora e no Brasil começaram a aparecer.

À rigor os Black Bloc não tem diferença tática de queimar pneu em avenida ou quebrar cabine de pedágio ou ocupar terra ou ocupar edifício. E não tem nenhum tipo de acúmulo imediato pra luta. Qual o acúmulo pra luta teve a ação da via campesina em quebrar o laboratório da Aracruz ou dos índios do Xingu detonarem a ensecadeira do Rio Xingu na obra de Belo Monte? E como se define “Acúmulo pra luta”?

3d8facd6f2c20f669666e55e5ccc81b3_500A luta não é um banco onde só ações táticas diretas ganhas a partir do contrato adquirido pós-greve se acumulam na acumulação primitiva de capital político.

Na luta aspectos simbólicos se juntam com aspectos objetivos do cotidiano e da luta política e o que se busca aqui, no imediatismo que nos toma, talvez nos cegue para o que se ganha lá na frente.

E antes de mais nada o primeiro grande acúmulo pras lutas que os Black Bloc nos deram é nos tirar do imobilismo analítico e estanque, que aponta a ação direta como um câncer para um processo revolucionário amorfo e mezzo idílico que na maioria das vezes não passa de fantasia.

Junho gritou, junho avisou, outubro repete, mas quem ouve?

downloadOs Black Bloc, o “Vandalismo”, a proteção a uma lógica de que a ação violenta “afasta” manifestantes, o medo de passar da linha que divide o bom moço que é palatável pro voto da vovó Donalda e o cara que apanha da polícia e a enfrenta, tudo isso reaparece a cada ação da política e da polícia que exigem irmos além do ramerrame intelectualóide e “tático” que permeia o mundo da esquerda, que ainda conservadora, tem medo do planeta, porque o planeta tira votos.

A Esquerda ai se arvora de Super Nanny dos “rebeldes e irrefletidos ativistas quebradores”, tratando quem tá na rua como mulas que precisam do genial guia dos povos. A esquerda se coloca como defensora de uma lei que a Polícia não anda seguindo ou respeitando na hora de jogar bomba de gás.

untitled-3A lógica do PSTU, infelizmente, reaparece em textos cuja leitura limitada da relação entre as pessoas, o povo, e os BB, é uma leitura inclusive mais próxima da leitura classe médianovista do que do povo, povo mesmo. Ao tomarem pra si a lógica de que os Black Bloc tornam-se barreira à chegada de mais gente nos movimentos e manifestações, ao fomento da atividade política das masses, muitos analistas são como o jornalista que briga com a imagem ao escolher interpretar quem quebra banco como “vândalo” e não como resistente à polícia e à política que quebra gentes, trabalhadores, etc. Não há diferença ai entre o militante da Esquerda com medo e o jornalista que chama de confronto o massacre que as polícias fazem dos trabalhadores.

Primeiro porque o povo quebra, e quebra mesmo, as estações de trem do Rio quando sofrem as contínuas paradas da Supervia são quebradas, nas ruas o que se houve é que se entende o emputecimento que leva à depredação de bancos e vidraças, pontos de ônibus em um estado de coisas onde as pessoas são tratadas como gado. E o quebra-quebra não é exatamente um elemento novo na história dos cansaços e manifestações da população carioca e Brasileira. As estações de trem e barcas que os digam.

download (1)Os professores por exemplo, abraçaram os BB, os entenderam, e primeiro, entenderam que os Black Bloc não são e nunca foram exatamente os mesmos que depredam, sendo muito exatamente quem fica na frente do batalhão de choque quando este avança, pro resto da massa poder se proteger. E isso é historicamente sabido e comprovado, é repetido ad infinitum, mas se opta por cair, mesmo pessoas das mais preparadas, no senso comum que envolve os analistas dos adeptos da tática.

imagesE quando se chama os Black Bloc de vanguarda, o que se mostra é uma leitura formatada pro esquemas rígidos imutáveis para uma esquerda teoricamente reduzida a igrejas teóricas cegas, surdas, mudas e meio mancas. Até visualmente os BB são retaguarda, até na tática militar os BB são retaguarda. Essa lógica de são uma vanguarda e de que existe uma vanguarda que pensa como tática política para o assalto ao poder uma tática de resistência EM manifestações, revela um problema analítico grave, porque não situaliza a questão, não organiza a análise em torno do objeto específico dela, mas generaliza a partir de uma espécie de sobrevoo universalista.

images (2)Diante disso a brecha para a criminalização, se não legal ao menos política, é dez merréis pra ter. E exatamente porque coloca os BB e toda ação direta como uma barreira à organização popular. É? Vamos mesmo cometer o mesmo erro da esquerda francesa diante dos quebradores de carros dos subúrbios do país que reagiam à violência popular e tomaram o ato como tática de resistência?

images (1)Vamos ignorar os alvos das depredações? Que quando raramente fogem de Bancos e revendedoras de automóveis são abrigos de pontos de ônibus e automóveis, símbolos gritantes do capitalismo e da cultura de consumo que atinge a população no acirramento do desejo, mas jamais os permite passear no céu da obtenção de bens supérfluos que Bancos e Indústria automotiva esfregam nas suas fuças?

E será mesmo que a gente precisa relembrar os companheiros que foi exatamente após confrontos entre políticas e “vândalos” que a luta acirrou? que um milhão forma às ruas? Que até os mesmos profissionais de educação citados no texto gritaram ontem “Black Bloc é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo”?

Junho ensinou mais, muito mais, aprender deveria ter sido um dever.

Solidariedade à Policiais militares? Passa amanhã

meninaA Policia Militar é uma organização filha da puta, desculpem o termo, mas é.

E mais, seus soldados ao serem cúmplices dos governantes e baterem em trabalhador tornam-se pior que cães amestrados.

Depois choram por solidariedade quando os seus morrem no combate à violência, a mesma violência que praticam usando farda, se igualando a bandidos. Não tem como ter solidariedade com quem nos violentas.

A diferença entre o bandido e o Policial violento é que o bandido não tem como obrigação zelar pelo cumprimento da lei, a ele não temos confiança, não lhes precisamos confiar, tampouco esperar que respeite nossos direitos.

O policial ao contrário, esperamos dele que zele por NOSSOS direitos e não pelo direito da propriedade, do lucro, de governantes ilegítimos.

Qual o que? O Policial militar além dos inúmeros casos de violência, corrupção, achaques, ainda nos violenta em nossas reivindicações mais legítimas, nos bate, nos joga spray de pimenta, gás lacrimogêneo, tudo sob o pretexto de “fazer cumprir a lei”, ou seja para “fazer cumprir a lei” a descumprem nos direitos fundamentais, fora que jamais “fazem cumprir a lei”, fazem cumprir a vontade de seus senhores.

E não citei aqui os assaltos cometidos por PMs, que não são isolados, os achaques, as duras em busca de migalhas do parco salário dos trabalhadores, o tapa na cara de adolescentes, especialmente negros, que ousam dizer que tem direitos, o assédio à mulheres por acaso detidas para averiguação, a organização de milícias para achacar a população sob o argumento mau caráter de “estamos combatendo o tráfico onde a lei não chega”….

Portanto caros soldados da Policia militar, eu lamento, mas não lamento quando vocês sofrem violência. Vocês são semeadores da barbárie, assassinos de direitos e também de vidas, é só olhar as estatísticas relacionadas à morte por ação da polícia, são assassinos do estado de direito, são tanto quanto s bandidos, agentes da barbárie.

Depois de ontem, especialmente depois de ontem, 28/09/2013, quando a PM invadiu a Câmara de vereadores do Rio de Janeiro e expulsou na porrada profissionais de educação, o policial militar é um inimigo do qual tenho tanto medo quanto tenho de bandidos. Evitar acionar a policia militar é mais que uma ordem íntima, evitar chamar, evitar contar com, e também não guardar solidariedade.

PMs ganham mal? é uma pena, mas como vocês optam por agredir quem luta também por melhorias de salários, acho que não precisam de nós, tampouco de nossa solidariedade: Vocês estão sozinhos.

A dimensão da utopia, a revolução e os novos Lênins

 Road_to_utopiaTratar de mudança política não é exatamente simples, tampouco receita de bolo. A dimensão da transformação tem tantas miríades de sentidos possíveis subjetivos a serem lidos em atos, palavras e movimentos, que a simplificação de um método ou de uma ideia de estado, ou de mesmo uma só ideia de revolução é delírio simplificador.

Se ler a realidade concreta fosse fácil e apontasse para um só sentido unitário não haveria desde sempre um mar de pensadores mundo e história afora, cada um com sua percepção de uma realidade, de uma verdade ou até da não-verdade.

A questão é que cada contexto histórico, cada conjuntura, aponta sinais identificáveis de novas formas que a multidão de gentes por vezes denominada “povo”, “massa”, “massona” ou “povão” (quase sempre por quem se aparta dela para defini-la com distância segura) interpreta se não o real a ruptura com o que entende como sistema ou peso opressivo de alguma realidade.

Cada contexto histórico traz suas insurgências, traz suas permanências, traz suas rupturas e conservações e é necessário que cada pensador ou militante que pretenda transformar este real lê-las, olhá-las nos olhos, preocupados menos com encontrar a verdade verdadeira única de todas as coisas e mais com antecipar minimamente uma tática de intervenção que consiga atrair o máximo de gente possível para oque defende como eixo de ações transformadoras.

É, amigão, to falando de convencer pessoas que tua tática revolucionária é o lance.

img_ju427-06bNeste contexto atual, por exemplo, o próprio questionamento da relação entre movimentos, partidos e ativistas com o cotidiano político é questionado. A própria relação entre os movimentos, as pessoas e a atividade política é jogada aos leões em busca de demolir concepções quadradas de vida, de militância, de relação com vidros, vidraças, mundo, ambiente, amor, mídia.

A dimensão contestatória não tá ai para fingir que não vê a frase maldita cheia de homofobia do sujeito que em tese diz que quer mudar o mundo.

A contestação, caras pálidas, não tá vestindo o fraque mediado do fanfarrão da esquina, tampouco o papo brabo de que “povão é assim”.

A contestação quebra vidraça do Itaú,a contestação arrebenta a secadora do Xingu, invade usina, ocupa Câmaras, derrete leninismos de salão querendo mais que conversinha nas terras Quilombolas, na avenida Paulista ou na praça onde Feliciano-RS prendem pessoas que se beijam em um espaço público ocupado por ele indevidamente em nome de uma só vertente de uma só fé, atropelando a laicidade do estado, atropelando a democracia de um estado cujo emblemático simbolismo de um Pastor Deputado (jamais um Deputado Pastor) chamando a polícia para reprimir lésbicas se beijando EM ESPAÇO PÚBLICO é eloquente.

street_art_24A contestação não trata a dimensão do sonho como um “Além da Imaginação”, uma “Twilight Zone” promovida por esquerdóides, amiguinhos. A contestação chegou à sala de aula, e não na cabeça de estudantes, mas na de professores precarizados em greve numa das principais cidades do país.

A contestação tá na rua derrubando um dos governadores centrais para a política do PT e para concepção de cidade mercadoria, de mundo mercadoria, de Brasil Grande neodesenvolvimentista com fome de petróleo, com fome de carbono, de escolas, de postos de saúde, de consumo que nos consome enquanto gentes a trabalhar doze, treze, quatorze horas para pagar os carnês das dívidas enquanto deixamos a vida no prelo.

A contestação pegou a dimensão do sonho gritando que não era por vinte centavos enquanto militantes amestrados pro revistas, blogs e sites de partidos acostumados com a cadeira acolchoada do poder dizia se tratar de Vândalos e Baderneiros.

imagesA dimensão do sonho voltou numa contestação mascarada que lei nenhuma vai desmascarar e enquanto isso ainda existem citadores compulsivos de Lênin procurando pelo em ovo pra justificar qualquer coisa em nome de mandatos acomodados, acostumados a pedir em vez de exigir, a criar espantalhos para a fome de moral e bons costumes de quem pede o fim da corrupção como se pedisse pães franceses na padaria mais próxima.

E enquanto a dimensão do sonho renasce com utopias múltiplas, dissonantes e polifônicas, como deve ser, a exigência de novos Lênins é clara, imensa, nítida. Mas exigem-se novos Lênins com menos fome por construir estacas fundadores de novos países e novos estados, mas canais para o fluxo contestatório passar derrubando represas.

São precisos Lênins que construam o diálogo, um diálogo amplo, que aprendam, que ensinem, que se joguem, que quebrem, que requebrem, que riam, que sambem, que ouçam a polifonia menos buscando a síntese perfeita e mais aprendendo que ruptura pode sim rimar com gostosura, com liberdade, com vontade e com verdades, sim com s, por muitas, imensas, gigantes, que nunca dorme, que se soltam noite afora quebrando tudo até a última ponta para derrubar Cabrais e outros ditadores mal-acostumados a achar que a voz das ruas é rouca, enquanto sempre foi doce.

images (3)São precisos novos Lênins prontos a divertirem-se recuperando a utopia, a dimensão do sonho em que Garibaldis, Bakunins, Marx, Engels fizeram a primavera dos povos.

Porque sempre precisamos de mais primaveras.

A cor, o gênero, a classe, a orientação sexual e a raiva

81_lafountain_lg_00Me acostumei a ouvir quase todo dia questionamentos sobre o que faço para mudar o mundo, qual minha ação militante.

Ou isso ou questionamentos sobre o que eu sinto para me meter em tudo o que tange a política ou pior, quem sou eu e por que gasto meu tempo em atividade política.

Semanalmente leio que sou estúpido, ingrato, mal caráter, viado, corno, que minha mulher (SIC) é uma vagabunda e isso tudo por ser comunista.

Algumas vezes gente moralmente impotente (E desconfio que sexualmente também) e anticomunista por na maioria das vezes pensar com os músculos ou ouvir o galo cantar e não saber onde, ou ser criado de forma doutrinária, adestrado para não ter opinião própria, mas repetir ladainhas anti-comunistas, também ataca, faz montagem covarde com meu nome, me ameaça ou coisas afins.

Um pouco mais doloroso é quando pessoas de esquerda, ou autoproclamadas como esquerda, ignoram o minimo de racionalidade necessária, de educação política, de formação ou para repetir cartilhas produtivistas e frases soltas de Lênin, Marx ou Trotsky (Rosa não pode segundo o manual prático do super leninista), como se isso fosse marxista ou fosse instrumental teórico analítico.

Essas pessoas por vezes ignoram a questão ambiental, estupram a questão feminista, cagam pro anti-racismo e a anti-homofobia, ignoram… O que importa é a contradição capital x trabalho.

Muitas vezes sem fazer a ponte entre a tal contradição e a questão racial, de gênero ou de orientação sexual, muitas vezes pof incapacidade, outras por machismo, racismo e homofobia mesmo, mal disfarçada muitas vezes.

Me acostumei também a ser pobre, a ralar pra conseguir um micro, a trabalhar mais, a ganhar menos, a pegar ônibus, trem, a faltar grana, a não tomar cerveja quase nunca, a pedir emprestado dinheiro, a no fim do mês ficar com medo de não ter como pagar o aluguel.

A tudo isso me acostumei e me acostumei também a me ver a resistência alimentada pelo sentimento de raiva.

É, de raiva, porque é a raiva que me faz voltar pra enfrentar cada batalha dessas, inclusive as menores como as de pequenas vaidades imbecis que atravancam ações maiores.

É, de raiva.

Porque o que o mundo, eu ou outras pessoas fazem comigo me deixam puto. E eu reajo, me coloco, me exponho, por vezes sou julgado de forma calhorda, por vezes não, é do jogo da transparência. E sim, me acostumei a ter raiva.

Só que eu sou homem, branco, alto, com nível superior e ai o que pega é que minha raiva é composta de muitas armas e me dá uma certa tristeza, porque não tenho o gênero, a pele, a cor, a orientação sexual, a origem social erradas.

Ai não dá pra ter raiva, porque meu privilégio vem de tantos lados que me assusta o quanto perdemos tempo com coisas menores diante da necessária resistência primeiro em apoio a quem não tem a pele, a cor, o gênero, a orientação sexual, a classe certas.

Diante disso eu me dispo de mim, paro de ter raiva e me ponho a lutar.